DESAFIO NACIONAL URGENTE

OCDE revela: Desigualdade marca aprendizado infantil aos 5 anos

Crianças pobres têm pior desempenho ainda na pré-escola, alerta OCDE
O estudo da OCDE reforça a urgência de políticas públicas para a primeira infância.

Estudo internacional mostra que crianças de baixa renda ficam atrás em habilidades cruciais de literacia e numeracia já na pré-escola. Dados do relatório indicam a urgência de políticas integradas.

Um estudo internacional coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revela nesta quarta-feira, 06 de maio de 2026, que a desigualdade socioeconômica se manifesta de forma cruel no desenvolvimento infantil: crianças de famílias mais vulneráveis já apresentam desempenho educacional inferior na pré-escola, muito antes do início da alfabetização formal. A pesquisa, que avaliou crianças de cinco anos em nove países, incluindo o Brasil, aponta que essa disparidade precoce não apenas compromete a aprendizagem fundamental em literacia e numeracia, mas também impacta profundamente a dignidade e as oportunidades futuras de milhares de jovens, clamando por uma revisão urgente das políticas públicas para a primeira infância.

No Brasil, a pesquisa foi aplicada em 2025, envolvendo 2.598 crianças de 210 escolas em São Paulo, Ceará e Pará, predominantemente da rede pública. Este levantamento faz parte do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), marcando a primeira vez que estudantes brasileiros da educação infantil foram incluídos neste escopo.

A avaliação examinou habilidades essenciais, como a literacia – um conjunto de competências que precedem a alfabetização, incluindo compreensão oral, vocabulário e consciência fonológica – e a numeracia, ligada às noções matemáticas iniciais. As crianças participaram de atividades individuais e lúdicas, apresentadas em tablets na forma de jogos e histórias.

Na área de literacia, as crianças brasileiras registraram uma média de 502 pontos, um índice muito próximo da média internacional, de 500 pontos. Contudo, a análise por nível de renda revela discrepâncias significativas: alunos de famílias mais pobres alcançaram uma média de 487 pontos, enquanto os de famílias com maior renda atingiram 521 pontos.

A disparidade se acentua ainda mais na numeracia. A média brasileira foi de 456 pontos, abaixo dos 500 pontos da média internacional. Entre as crianças mais vulneráveis, o resultado foi de 429 pontos. Já entre as mais favorecidas economicamente, a média subiu para 484 pontos.

Esses números traduzem diferenças concretas em competências que são pilares para o desenvolvimento infantil. Cerca de 80% das crianças de famílias mais ricas conseguem identificar numerais e sequências numéricas aos cinco anos. No grupo das crianças mais pobres, este percentual diminui para 68%, indicando uma lacuna preocupante.

O mesmo padrão surge nas habilidades matemáticas primárias. Entre as crianças de maior renda, 42% demonstram compreender conceitos de adição e subtração com até dez objetos. No grupo de menor nível socioeconômico, apenas 26% alcançam essa capacidade, revelando um fosso de oportunidades já nos primeiros anos.

Os pesquisadores sublinham que o estudo reforça a premissa de que a desigualdade educacional tem suas raízes muito antes do ensino fundamental. “As desigualdades de aprendizagem começam muito antes do ensino fundamental. Aos cinco anos, já observamos diferenças importantes associadas às condições sociais das crianças e ao seu contexto de vida”, explica Tiago Bartholo, doutor em educação e um dos coordenadores do estudo no Brasil.

Segundo Bartholo, os dados evidenciam os efeitos cumulativos de múltiplos fatores sociais e econômicos sobre o aprendizado na primeira infância. Meninos, crianças pretas, pardas e indígenas, bem como aquelas de famílias em maior vulnerabilidade, apresentaram maiores dificuldades nas diversas áreas avaliadas, um alerta para a complexidade do problema.

“Quando diferentes fatores sociais e econômicos se combinam, as diferenças de aprendizagem se ampliam de forma significativa, o que reforça a necessidade de políticas mais integradas desde a primeira infância”, frisa Bartholo, apontando para a urgência de abordagens multifacetadas.

O levantamento também identificou diferenças de desempenho entre gêneros. Em literacia, as meninas brasileiras atingiram uma média de 508 pontos, superando os meninos, que registraram 497. Em numeracia, contudo, os meninos demonstraram um desempenho ligeiramente superior, com 458 pontos contra 454 das meninas, uma diferença estatisticamente pequena.

Além do ambiente escolar, o estudo aprofundou-se no contexto familiar das crianças, analisando o impacto das experiências vividas em casa no desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Os resultados revelam discrepâncias notáveis entre famílias de diferentes níveis de renda, destacando o papel crucial do ambiente doméstico.

Entre as famílias mais ricas, 57% dos pais reportaram cantar músicas, recitar poemas ou rimas infantis para os filhos de três a sete vezes por semana. Nas famílias mais pobres, somente 31% afirmaram manter essa frequência, o que indica uma lacuna em estímulos verbais e afetivos cruciais.

A leitura de livros também apresentou uma forte desigualdade. Enquanto 24% dos pais de maior renda disseram ler frequentemente para as crianças, entre os mais pobres esse percentual foi de apenas 9%. Mesmo atividades aparentemente simples, como conversar sobre sentimentos, são mais prevalentes em famílias de maior nível socioeconômico. O hábito foi relatado por 69% dos pais mais ricos, em contraste com 47% dos mais pobres, refletindo uma assimetria no suporte emocional e comunicativo.

Para Marina Fragata Chicaro, diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), os resultados fornecem subsídios vitais para a reorientação de políticas públicas voltadas à primeira infância. “Os dados nos indicam que é preciso garantir mais oportunidades para que as crianças se desenvolvam de forma completa, construindo um futuro com mais equidade”, afirma.

Especialistas argumentam que, além de aprimorar a qualidade da educação infantil, o Brasil precisa expandir as políticas públicas de orientação às famílias para fortalecer o aprendizado também no lar. “O país precisa avançar em ações que ajudem os pais a entender como podem contribuir para o desenvolvimento de seus filhos. Tendo escola e família trabalhando em parceria e de forma complementar, esses resultados podem melhorar muito”, defende Beatriz Abuchaim, gerente da FMCSV.

O relatório da OCDE enfatiza que diminuir as desigualdades já na primeira infância é um passo estratégico para mudar trajetórias educacionais futuras. Segundo os pesquisadores, quanto mais cedo as diferenças surgem, maior a probabilidade de se aprofundarem e se perpetuarem ao longo de toda a vida escolar, transformando-se em barreiras para a mobilidade social.

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