FUTURO DA ENERGIA

Natal sediará congresso internacional sobre energia eólica offshore e suas aplicações industriais

Professor Mário Gonzalez falando sobre energia eólica offshore.
Professor Mário Gonzalez em entrevista sobre o futuro da energia eólica offshore no Rio Grande do Norte.

Evento reunirá especialistas para discutir o potencial eólico do Nordeste e sua transformação em matéria-prima para a indústria, impulsionando o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Norte.

O Rio Grande do Norte se prepara para sediar, entre 1º e 3 de junho de 2026, a quarta edição do Brazil Offshore Wind & Power-to-X (BOWPX). Este evento, reconhecido como um dos mais importantes da América Latina para energia eólica offshore e novas cadeiras produtivas da transição energética, acontecerá no Serhs Natal Grand Hotel & Resort, localizado na Via Costeira, em Natal. O congresso congregará representantes de governos, universidades, centros de pesquisa, investidores, empresas e instituições financeiras para debater o futuro da indústria verde no Brasil.

A realização do BOWPX ocorre em um momento crucial, com a energia eólica offshore emergindo como uma das principais apostas para a expansão da matriz energética global. Em contraste com parques eólicos terrestres, os empreendimentos offshore exploram ventos mais fortes e constantes em alto-mar, o que eleva a capacidade de geração elétrica e abre caminhos para novos projetos industriais que utilizam essa energia renovável como insumo.

Professor Mário Gonzalez em entrevista sobre energia eólica offshore.

O Rio Grande do Norte desponta como um estado com potencial excepcional para explorar os ventos marítimos, consolidando sua liderança nacional em geração eólica em terra. Essa vocação natural atraiu o interesse de empresas, pesquisadores e órgãos públicos, que veem na eólica offshore uma oportunidade ímpar de desenvolvimento econômico, com potencial para gerar investimentos significativos, empregos qualificados e diversificar a atividade produtiva regional.

Organizado pelo Grupo de Pesquisa Creation, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o BOWPX chega à sua quarta edição consolidado como um fórum essencial para a discussão sobre o futuro da energia offshore e suas aplicações industriais. O professor Mário Gonzalez, doutor em Engenharia de Produção e fundador do Creation na UFRN, ressalta que o encontro foca não apenas na geração de energia, mas especialmente em seu aproveitamento como matéria-prima para processos produtivos inovadores.

"O evento tem como principal foco discutir o novo setor econômico de eólica offshore e as aplicações dessa eletricidade renovável, não somente como energia elétrica, mas sim como insumo na indústria", explicou Gonzalez em entrevista ao podcast Central Agora RN, na TV Agora RN (YouTube), na sexta-feira, 29 de maio. Entre os debates programados, destacam-se o uso da eletricidade renovável na indústria do cimento, siderurgia, fertilizantes e outras atividades estratégicas para a descarbonização da economia.

A expectativa é que o congresso contribua para solidificar uma visão de longo prazo para o Nordeste, atraindo empreendimentos industriais que capitalizem a vantagem competitiva da região na produção de energia renovável. O evento também ocorre em um contexto de avanços regulatórios, como a aprovação do marco legal da energia offshore em 2025 e a regulamentação federal em curso para permitir os primeiros projetos comerciais em águas brasileiras. Embora dezenas de propostas ambientais estejam em análise, nenhuma usina offshore entrou em operação no Brasil até o momento.

Para os entusiastas do setor, a combinação de ventos favoráveis, disponibilidade de áreas marítimas, infraestrutura em expansão e capacidade de geração renovável posiciona o Nordeste de forma privilegiada na atração de investimentos ligados à economia de baixo carbono. No último dia do evento, uma rodada de negócios visa aproximar investidores, financiadores, desenvolvedores de projetos e fornecedores para estruturar uma cadeia produtiva nacional robusta.

Na entrevista à TV Agora RN, o professor Mário Gonzalez enfatizou as condições excepcionais do Rio Grande do Norte para a geração eólica, tanto em terra quanto no mar, citando a velocidade, constância e direção dos ventos potiguares. Ele comparou o Estado a uma “Disneylândia dos ventos” para geração renovável, destacando que parques offshore podem apresentar um fator de capacidade 12% a 15% superior aos terrestres.

Um dos desafios abordados foi o “curtailment”, interrupção da geração quando a produção excede a capacidade de consumo e transmissão. O Rio Grande do Norte gera cerca de 13 gigawatts-hora e consome menos de 2 gigawatts-hora, necessitando enviar o excedente para outras regiões. Gonzalez aponta a atração de indústrias consumidoras locais como solução, como as de aço verde e fertilizantes nitrogenados via hidrogênio verde, ressaltando a importância estratégica destes insumos para a descarbonização e a redução da dependência de importações – o Brasil importa 86% de seus fertilizantes.

O projeto Green Energy, parceria Brasil-Alemanha com R$ 12 bilhões em investimentos para amônia verde, e o conceito de “neoindustrialização sustentável” foram citados como exemplos. A infraestrutura logística, como o futuro Porto-Indústria Verde do Rio Grande do Norte, é vista como crucial para o suporte à indústria offshore. A formação de mão de obra qualificada também é prioridade, com a UFRN adaptando seus cursos, como a transição do curso de Engenharia de Petróleo para Engenharia de Energia e a reformulação do programa de pós-graduação.

O Banco do Nordeste, através de seu superintendente no RN, Jeová Lins de Sá, é apoiador do evento e destina R$ 1,4 bilhão anualmente para operações em energias renováveis no estado, além de ter projetos em análise totalizando R$ 4 bilhões. O banco foca não apenas na geração, mas na atração de empreendimentos de valor agregado, como data centers e produção de baterias, impulsionando a "indústria verde".

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