PREOCUPAÇÃO COM O BRASIL
Multilaser se preocupa com cenário macroeconômico brasileiro, afirma presidente
Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho de administração da Multilaser, detalha impactos de juros altos, endividamento e contas públicas no setor varejista e na indústria nacional.
A Multilaser, gigante do varejo com faturamento de R$ 5 bilhões e mais de 5 mil funcionários, expressou nesta domingo, 05/07/2026, sua apreensão diante do atual cenário macroeconômico brasileiro. A declaração, feita por Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho de administração da companhia, em entrevista ao CNN Money, ressalta os desafios impostos pelas altas taxas de juros e pelo endividamento das famílias, fatores que afetam diretamente o setor em que a empresa atua e a vida dos consumidores.
Ostrowiecki descreveu os juros como uma "camisa de força" que sufoca a economia, prejudicando especialmente o setor produtivo. Ele apontou que o consumidor está "bastante sufocado, com muita dívida, muito pressionado por juros e muitos com nome sujo", o que resulta na retração do consumo, principalmente de bens duráveis de maior valor. Diante desse quadro, a Multilaser tem direcionado seus esforços para oferecer produtos de custo mais acessível.
O diagnóstico traçado pelo executivo sobre as contas públicas brasileiras é preocupante. Ele estima que o déficit primário deste ano — antes do pagamento de juros — esteja em torno de 0,4% do PIB, o que equivale a mais de R$ 50 bilhões. Ao considerar o pagamento de juros, esse déficit sobe para aproximadamente 8% do PIB, aproximando-se de R$ 1 trilhão. "O Brasil hoje paga mais juros real do que a Rússia, que está em guerra", comparou Ostrowiecki.
A advertência se estende à dívida do Estado brasileiro, que, segundo o presidente do conselho, poderá ultrapassar 100% do PIB no próximo ano caso o ritmo atual de gastos e endividamento seja mantido. Em sua análise, o Brasil enfrenta um problema estrutural complexo, marcado pelo viés de gastos governamentais, pela influência das emendas impositivas do Congresso — que somam mais de R$ 60 bilhões — e pela vinculação de receitas a despesas obrigatórias.
Taxa das blusinhas e concorrência com a China
Abordando o fim da "taxa das blusinhas", Ostrowiecki apresentou uma análise multifacetada. Embora reconheça o benefício para o consumidor endividado com a possibilidade de adquirir produtos mais baratos, ele argumenta que a isenção fiscal para produtos importados da China funciona como um subsídio indireto à indústria estrangeira. "Na verdade, hoje essa política atual virou uma bolsa subsídio para a fábrica chinesa. Nós estamos fazendo protecionismo ao contrário", criticou.
Para ilustrar o impacto, Ostrowiecki citou o exemplo de uma fábrica de roupas no Ceará competindo com outra em Xangai. Ele explicou que, em um produto de R$ 100, aproximadamente R$ 48 são impostos pagos pela indústria nacional, enquanto o concorrente chinês envia o mesmo item com alíquota zero. "Acabou a fábrica do Ceará", lamentou, propondo isonomia tributária: "Zero proteção para a indústria nacional, zero proteção para a fábrica chinesa, todo mundo paga igual."
Escala 6x1 e polarização política
Em relação à escala 6x1, Ostrowiecki declarou-se favorável ao seu fim, defendendo que "a economia tem que servir o ser humano e não o contrário". Ele ressalvou, contudo, a importância de que tais mudanças sejam implementadas com responsabilidade e prazos adequados para a adaptação das empresas. Atualmente, menos de 15% dos funcionários da Multilaser trabalham sob esse regime.
Ao ser questionado sobre a polarização política e as eleições de 2026, o executivo afirmou acreditar que qualquer governo eleito deveria ter um perfil "reformista", com compromisso com o equilíbrio fiscal, o enxugamento do Estado e o corte de privilégios. Ostrowiecki criticou o que chamou de "anomalia brasileira": o fato de o Estado, após tributar e realizar programas sociais, acabar por aumentar a desigualdade. "O nosso Estado é uma máquina de aumentar a desigualdade no Brasil. Isso precisa acabar", concluiu.
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