ALERTA NO TRANSITO
Mortes no trânsito ligadas ao álcool têm maior alta desde 2016
Estudo do Cisa aponta que número de óbitos por ingestão de álcool ao volante em 2024 supera o de 2016, encerrando série histórica de redução. Especialistas pedem estratégias mais eficazes de fiscalização e conscientização.
O Brasil registrou 13.075 mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool em 2024, o que equivale a mais de 35 casos por dia. Conforme estudo do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), esta é a maior contagem da série histórica desde 2016, quando ocorreram 13.095 casos. A decisão de considerar o dado como um marco preocupante foi divulgada nesta quinta-feira, 18 de julho de 2024, e importa por revelar um retrocesso em anos de esforços pela segurança viária, impactando diretamente a dignidade e o direito à vida dos cidadãos.
Apesar da alta registrada em 2024, os dados do Cisa também apontam uma queda de 19,5% na taxa de óbitos no trânsito por álcool por 100 mil habitantes ao comparar os anos de 2010 e 2024. Nesta sexta-feira, 19 de julho de 2024, se completam 18 anos da chamada Lei Seca, que estabeleceu tolerância zero para o consumo de bebidas alcoólicas na direção, um marco na segurança viária.
Em números absolutos, foram 1.925 mortes a menos entre 2010 e 2024, o que corresponde a uma diminuição de 12,8%. A taxa de óbitos atingiu seu menor valor em 2019, quando chegou a 5,4 óbitos por 100 mil habitantes, com 11.261 vítimas. No entanto, o índice voltou a crescer a partir de 2020, alcançando 5,5 e 11.600 casos naquele ano. O aumento continuou nos anos seguintes, até 2024, que encerrou com um índice de 6,2 e 765 mortes a mais que em 2023.
“O crescimento nas ocorrências nos últimos anos tem fatores complexos”, afirma a coordenadora do Cisa, Mariana Thibes, ao Estadão. Para ela, o número de operações com o uso de bafômetros aumentou, mas também houve crescimento na frota de motocicletas e na quantidade de acidentes envolvendo motociclistas. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 40% das mortes no trânsito envolvem esse grupo. “O trânsito ficou mais perigoso”, destaca.
Mariana Thibes defende que uma redução efetiva no número de vítimas exigiria que as leis sejam acompanhadas de investimentos em fiscalização confiável, com mais planejamento e inteligência estratégica, além de acesso a atendimento de emergência e estratégias de prevenção direcionadas. “É um sinal de alerta importante. O Brasil avançou muito na última década para reduzir as mortes em acidentes de trânsito ocasionados pelo uso de álcool, mas ainda há desafios sérios. Um deles é a consistência das medidas de fiscalização. O impacto na redução de mortes tende a diminuir, mesmo com leis existentes, se não houver uso frequente e constante do bafômetro, sobretudo nas áreas onde os dados mostram”, diz a especialista.
Conforme a avaliação do Cisa, 18 Estados apresentaram taxas superiores à média nacional, com Tocantins (13,4), Piauí (12,1) e Mato Grosso (11,1) registrando os maiores índices. A população masculina é a principal vítima, respondendo por 86,7% dos óbitos e 81,8% das hospitalizações por álcool no trânsito em 2024. Nesse mesmo ano, ocorreram 102.440 internações por combinação de álcool com direção, um aumento de 1,9% em comparação com o ano anterior.
“Os homens são as principais vítimas porque concentram os dois fatores de risco que mais se combinam de forma fatal: a maior exposição ao trânsito, especialmente como motociclistas, e o maior consumo nocivo de álcool”, avalia Mariana Thibes. Ela acrescenta que há uma dimensão cultural por trás da maior vitimização masculina, pois o consumo excessivo de álcool ainda é socialmente associado à masculinidade. Essa lógica se estende ao trânsito, com predisposição para o risco, velocidade e resistência ao uso de equipamentos de proteção, conforme aponta a pesquisa “Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025”.
No estudo, o Cisa detalha que a Fração Atribuível ao Álcool nos acidentes de trânsito é de 36,6% para homens e 26,3% para mulheres, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso significa que o álcool é fator determinante em uma parcela maior das mortes masculinas no trânsito. “Isso não é uma questão de biologia, é uma questão de comportamento socialmente construído. Justamente por isso, exige resposta que vá além da fiscalização e precisa incluir campanhas de conscientização que dialoguem com essas normas culturais de gênero”, afirma a coordenadora.
Nesta sexta-feira, 19 de julho de 2024, o Brasil também celebra o primeiro Dia Nacional da Lei Seca. A data comemora a assinatura da lei em 2008, considerada uma das mais rigorosas do mundo e um importante instrumento de segurança viária. Diante da data e do aumento recente das mortes por álcool no trânsito, Mariana Thibes reforça que “a resposta para esse problema precisa ser necessariamente multidimensional, uma vez que não existe uma medida isolada capaz de resolver algo tão complexo”.
De acordo com a coordenadora, a fiscalização, que precisa ser melhor distribuída pelo território, seguida por penalização e conscientização, forma a primeira frente de ação. “Precisamos ser mais estratégicos. As campanhas genéricas são limitadas. É preciso desenvolver ações direcionadas aos grupos mais vulneráveis, especialmente homens jovens e motociclistas, que dialoguem com as normas culturais que normalizam o risco e o consumo excessivo de álcool. O motociclista, em particular, merece atenção especial do poder público por ser o perfil mais exposto, vulnerável fisicamente e que mais cresce em número nas vias.”
A última frente apontada por Mariana Thibes é a regulamentação para a nova realidade, com infraestrutura viária que contemple o volume de motos, além de políticas de segurança específicas para o modal. “O Brasil tem uma das legislações mais restritivas do mundo no que tange álcool e direção e ela representa um avanço real na prevenção das mortes no trânsito. O que está faltando é estratégia para fazer essa lei funcionar de forma consistente, inteligente e integrada em todo o território nacional”, conclui.
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