DIVISÃO INTERNA
Michelle Bolsonaro expõe briga e complica estratégia de Flávio Bolsonaro à Presidência
Ex-primeira-dama critica senador por "punhalada" e desrespeito. Especialistas apontam risco para plano de atrair eleitores moderados e femininos. Crise expõe fissuras no núcleo bolsonarista e dificulta unificação.
A estratégia do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, de moderar seu discurso para atrair eleitores independentes e mulheres enfrenta um obstáculo significativo. A crise com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, exposta publicamente nesta segunda-feira, 29/06/2026, revela divisões no núcleo bolsonarista e pode comprometer a ampliação de seu alcance eleitoral. Cientistas políticos ouvidos pelo g1 avaliam que a exposição das divergências, especialmente sobre a forma como as decisões são tomadas e o respeito a diferentes vozes, impacta diretamente a imagem que o senador busca construir.
A tensão veio à tona quando Michelle publicou um vídeo em que relata ter recebido uma "punhalada" no ano passado. A divergência ocorreu após críticas da ex-primeira-dama à articulação do PL no Ceará para apoiar Ciro Gomes (PSDB) na disputa pelo governo do estado. Michelle relatou ter sido "maltratada" por Flávio Bolsonaro e sentiu que seu apoio foi tratado como "insignificante". Na ocasião, o senador reagiu afirmando que Michelle havia "atropelado o próprio presidente Bolsonaro" e que ela "precisa entender que a forma de tomar uma decisão às vezes é mais importante do que a própria decisão".
Em meio a tentativas de reconstruir a relação, Flávio Bolsonaro pediu desculpas à ex-primeira-dama. "Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil", escreveu.
Para Flávia Biroli, professora titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), a manifestação de Michelle tem potencial para gerar desgaste justamente junto ao público feminino, segmento que Flávio busca conquistar. "O que é mais interessante na fala da Michelle Bolsonaro é que ela está ativando as mulheres conservadoras, mas com uma linguagem muito próxima do feminismo, que defende o respeito às mulheres como sujeitos na vida pública e na política. Ela identifica Flávio como um homem que desrespeita mulheres", analisa Biroli.
Mayra Goulart, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, complementa que a crise dificulta a estratégia de Flávio não apenas para ampliar o eleitorado, mas também para atrair o apoio de elites políticas, o que se reflete na disposição para conceder palanques. "Quanto mais turbulenta for essa campanha, menor será a disposição de aderir a ela", pontua Goulart.
Já Luciana Veiga, cientista política e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, aponta que dados de monitoramento de redes sociais indicam que o principal efeito da crise não é a perda de apoio de Flávio entre mulheres, mas sim o enfraquecimento da capacidade de unificação do bolsonarismo em torno de uma única liderança. "A crise promove um ruído na campanha", afirma Veiga.
Em paralelo à gestão da crise interna, Flávio Bolsonaro tem buscado ampliar seu alcance eleitoral com um discurso voltado para pautas sociais, que antes eram predominantemente associadas à esquerda. Durante um evento em Guarulhos, em 20 de junho, o senador prometeu "cumprir um pacto contra a fome", uma promessa icônica do primeiro mandato de Lula (PT) em 2003. Essa estratégia, segundo o consultor de comunicação política Marcelo Vitorino, visa conquistar eleitores que se identificam com o discurso social predominante, como o de Lula, buscando "beliscar 5% desses votos" e avançar sobre o eleitorado adversário.
No entanto, Vitorino alerta para a diferença entre estratégia e capacidade de convencer o eleitor. "Para defender pauta social, você precisa ter uma trajetória, uma vida mais dedicada ao social, que dê credibilidade. Se não existe isso, talvez fosse mais estratégico buscar um vice que tivesse o perfil", analisa o consultor. Em outra frente, no mesmo evento em Guarulhos, Flávio Bolsonaro repetiu a frase "a esperança vai vencer o medo", utilizada por Lula na campanha de 2022, explorando a clássica oposição entre os sentimentos no marketing político. "Historicamente, vender esperança costuma ser mais eficiente do que vender medo, principalmente quando uma parcela significativa da população avalia positivamente o governo", observa Vitorino.
A tentativa de moderação também se estende à postura de Flávio Bolsonaro sobre tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. Pesquisa Quaest divulgada em junho revelou que 47% dos entrevistados veem Lula como o maior defensor do patriotismo e dos interesses do Brasil, contra 37% que apontam Flávio Bolsonaro. O mesmo percentual (47%) concorda mais com Lula, que acusa Flávio de ter incentivado o "tarifaço", enquanto 35% acreditam na versão do senador. Durante evento em Presidente Prudente, após a pesquisa, Flávio declarou intenção de viajar aos EUA para defender empresas brasileiras, afirmando "Não é justa mais essa sobretaxa nos nossos produtos. Espero que o governo americano mantenha esse mercado consumidor acessível para as nossas indústrias". Essa postura contrasta com 2025, quando Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, e Flávio evitou críticas diretas ao então presidente americano, chegando a afirmar que o "tarifaço" poderia "dar um empurrãozinho" para a aprovação da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.
Apesar da moderação em temas econômicos e sociais, Flávio Bolsonaro mantém um discurso radical em segurança pública, apresentando um plano com 12 medidas. Entre elas estão a redução da maioridade penal para 16 anos, castração química para condenados por abuso sexual, construção de cinco presídios de segurança máxima inspirados no modelo de El Salvador, classificação das facções e milícias como organizações narcoterroristas, e redirecionamento de benefícios de presos para vítimas. Para Mayra Goulart, da UFRJ, essas propostas demonstram que a estratégia de moderação possui limites, buscando contemplar eleitores da direita mais moderada sem abrir mão de pautas que caracterizam o bolsonarismo radical. "A extrema direita costuma disputar símbolos tradicionalmente associados à esquerda sem abandonar suas posições centrais. Não é um movimento de moderação propriamente dito, mas de disputa pelo significado dessas ideias", explica Goulart.
Flávia Biroli, da UnB, identifica que o movimento de Flávio Bolsonaro reflete um desafio comum a lideranças da direita: a tensão entre permanecer identificado com a extrema direita radical e ampliar o eleitorado por meio de uma suavização retórica. "Se ele suaviza demais, corre o risco de se tornar apenas mais um político da direita tradicional e perder a identidade construída pelo bolsonarismo", conclui a professora.
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