MODELO POLÊMICO

Método Bukele: Bolsonaro propõe política de El Salvador ao Brasil

Nayib Bukele e Eduardo Bolsonaro em debate sobre segurança pública no Brasil.
Nayib Bukele, presidente de El Salvador, e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que defende seu método.

Entenda as medidas de segurança, seus impactos e controvérsias em direitos humanos.

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) defendeu a aplicação do controverso "método Bukele" no Brasil para combater o crime organizado. A declaração, feita em 16 de maio de 2026 durante o lançamento da pré-candidatura de Guilherme Derrite (PP) ao Senado, ecoa a política de segurança de El Salvador e suscita debates intensos sobre direitos humanos e a eficácia de medidas drásticas na sociedade brasileira.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que atualmente reside nos Estados Unidos, expressou apoio ao ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo na corrida pelo Senado. No discurso, Bolsonaro defendeu explicitamente um modelo de combate à criminalidade inspirado na política de segurança do presidente salvadorenho Nayib Bukele.

Derrite, junto com nosso presidente Flávio Bolsonaro [PL], vai colocar o Brasil no método Bukele para, de fato, nós conseguirmos combater o crime organizado.

O que é o "método Bukele"?

Nayib Bukele ascendeu ao poder em 2019, superando os partidos tradicionais de El Salvador com a promessa central de erradicar a violência das gangues e impulsionar a economia estagnada do país.

Em 2020, o presidente salvadorenho autorizou a polícia e o Exército a empregarem força letal contra membros de gangues, alegando que estes se aproveitavam da pandemia de coronavírus. A medida veio após um fim de semana de violência que resultou em ao menos 50 mortes em El Salvador.

A partir de 2022, El Salvador foi colocado sob um estado de exceção, uma decisão aprovada pela Assembleia Legislativa a pedido de Bukele, com a finalidade declarada de frear a escalada de homicídios.

Esse decreto, prorrogado repetidamente pela Assembleia Nacional, resultou na suspensão de direitos constitucionais fundamentais e abriu caminho para encarceramentos em massa. Mais de 90 mil indivíduos foram detidos nos últimos anos, impactando drasticamente famílias e comunidades, embora o governo Bukele afirme que aproximadamente 10% deles foram posteriormente libertados.

Em 2023, o governo inaugurou o Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), uma gigantesca prisão projetada para abrigar milhares de pessoas acusadas de conexão com gangues.

A atenção global sobre o Cecot intensificou-se após o ex-presidente americano Donald Trump fechar um acordo com El Salvador. Pelo pacto, o país centro-americano receberia centenas de supostos integrantes da gangue venezuelana Tren de Aragua, deportados dos Estados Unidos.

Críticas e violações aos Direitos Humanos

Analistas e observadores internacionais têm levantado sérias questões sobre as práticas do governo salvadorenho, apontando que elas "violam sistemicamente" os direitos humanos da população.

Organizações de renome, como a Human Rights Watch e o Comitê contra a Tortura da ONU, criticam veementemente o que descrevem como violações generalizadas dos direitos da população.

Familiares de inúmeros detidos denunciam as prisões como injustas, clamando pela inocência de muitos que, segundo eles, não possuem qualquer ligação com as gangues. A dor e a incerteza dessas famílias ressaltam o custo humano das políticas de segurança.

Em uma medida que gerou forte repulsa, a Assembleia Legislativa de El Salvador aprovou reformas na Constituição que, entre outras medidas, incluem a possibilidade de condenar menores de 12 anos à prisão perpétua, conforme publicação no Diário Oficial. Esta alteração representa um retrocesso severo em termos de justiça juvenil.

Os deputados salvadorenhos estabeleceram que a prisão perpétua seria aplicada a indivíduos condenados por crimes graves como homicídio, feminicídio e estupro.

Frente a essa reforma, o Comitê dos Direitos da Criança e o Fundo das Nações Unidas para a Infância expressaram "profunda preocupação", alertando para o impacto devastador em crianças. Para estas organizações, adolescentes em conflito com a lei devem receber tratamento que "priorize a sua reabilitação e reintegração", e a prisão deve ser o "último recurso e pelo menor tempo possível", conforme comunicado oficial. A decisão de El Salvador contradiz diretamente princípios internacionais de proteção à infância.

Em coro com as críticas, o gabinete do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos instou as autoridades de El Salvador a "revisarem prontamente" as alterações constitucionais, classificadas como "preocupantes" por contradizerem normas internacionais de direitos humanos.

Redução drástica de homicídios

Contrariando as alegações de violações de direitos humanos e detenções arbitrárias, veementemente negadas pelo governo Bukele, El Salvador registrou uma redução drástica nas taxas de homicídio. O país, antes assolado por anos de violência intensa de gangues, viu seus índices caírem significativamente.

O governo, contudo, divulga esses números apenas por meio de declarações oficiais de autoridades ou da presidência. Desde abril de 2022, o acesso a estatísticas detalhadas sobre crimes como homicídios foi restringido, com a justificativa de que a informação será confidencial por um período de sete anos, levantando questões sobre a transparência dos dados.

As autoridades salvadorenhas atribuem a alta aprovação de Bukele entre os cidadãos diretamente a essa percepção de redução da violência e maior segurança.

Em 2024, Nayib Bukele marcou a história ao se tornar o primeiro presidente salvadorenho reeleito em mais de um século. Sua vitória foi precedida por uma série de manobras políticas: seu partido, que detém o controle do Congresso, destituiu membros da Suprema Corte e nomeou novos magistrados que abriram caminho para sua candidatura.

Posteriormente, em 2025, o Congresso de El Salvador avançou ainda mais, aprovando uma reforma constitucional que permite a reeleição presidencial por tempo indeterminado, consolidando ainda mais o poder de Bukele.

Sabe de uma coisa? Não me importo que me chamem de ditador. Prefiro ser chamado de ditador a ver salvadorenhos sendo mortos nas ruas.

Nayib Bukele, presidente de El Salvador

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