MOBILIDADE E SEGURANÇA

Medo da violência e do assédio altera rotina de mulheres e esvazia ônibus em Natal

Passageiras aguardam ônibus em ponto de Natal, evidenciando vulnerabilidade urbana.
Pesquisa da UFRN destaca que mulheres são as mais afetadas pela insegurança no transporte público da capital potiguar.

Relatório da UFRN revela que insegurança nos transportes públicos restringe o direito de ir e vir das mulheres, forçando mudanças de trajetos e horários na capital.

A insegurança e o medo de assédio impõem barreiras ao cotidiano de milhares de passageiros em Natal, com impactos desproporcionais sobre as mulheres, conforme aponta relatório divulgado nesta sexta-feira, 10/07/2026. A pesquisa, desenvolvida por estudantes do curso de Ecologia da UFRN, no âmbito da disciplina Sociedade e Desenvolvimento, identifica a violência como o principal obstáculo ao direito à cidade na capital potiguar.

O estudo, intitulado "Mobilidade, Gênero e Direito à Cidade: Percepções sobre Segurança, Assédio e Vulnerabilidade no Transporte Público de Natal", foi consolidado sob a orientação da professora Priscila Lopes. A investigação realizou auditorias, entrevistas e observações nos bairros Pitimbu, Lagoa Nova, Potengi, Alecrim e Nossa Senhora da Apresentação, revelando como a precariedade da infraestrutura urbana aprofunda a sensação de risco.

A infraestrutura de transporte apresenta falhas críticas: 36% dos entrevistados relatam pontos de ônibus sem iluminação ou cobertura. A vulnerabilidade é sentida drasticamente no bairro Potengi, onde o fluxo noturno em paradas monitoradas caiu de 41 pessoas durante o dia para apenas três após o anoitecer. Além disso, a superlotação, mencionada por 86,7% dos ouvidos no Alecrim, agrava o cenário de exposição.

Para as mulheres, o impacto é comportamental. Em bairros como Pitimbu e Lagoa Nova, mais de 50% relataram episódios de assédio. A estratégia de proteção adotada inclui evitar horários específicos, mudar vestimentas ou desistir de atividades noturnas. A insegurança também impulsiona o abandono do transporte coletivo: 76,6% dos participantes de Pitimbu e Lagoa Nova migraram para veículos particulares ou aplicativos, um fenômeno que, segundo o estudo, eleva os custos familiares e o impacto ambiental.

O relatório sugere medidas urgentes ao poder público, incluindo requalificação de pontos, iluminação reforçada, videomonitoramento e a criação do programa "Transporte Seguro para Mulheres". Para a professora Priscila Lopes, a sensibilidade dos pesquisadores, que compartilham da mesma realidade nas periferias, foi fundamental para o diagnóstico. "O planejamento de transporte ainda ignora a rotina feminina. Soluções simples de infraestrutura podem reduzir significativamente a vulnerabilidade das usuárias", destaca.

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