Lula diz que taxação de Trump será respondida 'à luz da lei de reciprocidade econômica'

Lula diz que taxação de Trump será respondida 'à luz da lei de reciprocidade econômica'
FOTO: MARCELO CAMARGO
FOTO: MARCELO CAMARGO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra-atacou a carta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que impôs tarifas de 50% sobre as exportações brasileiras nesta quarta-feira (9). Por meio de nota, divulgada agora à noite, o petista afirmou que o aumento unilateral das tarifas será respondido "à luz da lei brasileira de reciprocidade econômica".

"Qualquer medida de elevação de tarifas de forma unilateral será respondida à luz da Lei brasileira de Reciprocidade Econômica. A soberania, o respeito e a defesa intransigente dos interesses do povo brasileiro são os valores que orientam a nossa relação com o mundo", diz trecho da nota assinada por Lula.

A chamada Lei de Reciprocidade, citada na nota, permite ao Brasil adotar medidas equivalentes contra países que elevam tarifas unilateralmente. Na prática, o país poderá impor tarifas ou restrições do mesmo tipo em resposta, seguindo normas internas e acordos internacionais, como os da Organização Mundial do Comércio (OMC), para defender seus interesses comerciais.

Lula também contestou informações contidas na carta de Trump. "É falsa a informação, no caso da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, sobre o alegado déficit norte-americano. As estatísticas do próprio governo dos Estados Unidos comprovam um superávit desse país no comércio de bens e serviços com o Brasil da ordem de 410 bilhões de dólares ao longo dos últimos 15 anos", concluiu.
A declaração assinada por Lula nasceu de uma reunião de emergência marcada pelo presidente brasileiro após o anúncio de Trump. Nesta noite de quarta-feira, Lula recebeu no Palácio do Planalto o vice-presidente Geraldo Alckmin, ministro da Indústria, e os também ministros Fernando Haddad, da Fazenda, e Mauro Vieira, do Itamaraty. A reação era aguardada com ansiedade pelo mercado brasileiro e pelo Congresso Nacional.

Defesa do Judiciário

Com discurso de manutenção da soberania nacional, Lula respondeu ainda às acusações contidas na carta de Trump sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento sobre tentativa de golpe de Estado que tem Jair Bolsonaro (PL) e aliados como réus. Além de defender o ex-presidente, Trump disse que o processo era uma "caça às bruxas". Lula rebateu.

"O processo judicial contra aqueles que planejaram o golpe de Estado é de competência apenas da Justiça brasileira e, portanto, não está sujeito a nenhum tipo de ingerência ou ameaça que fira a independência das instituições nacionais", escreveu o presidente brasileiro.

Lula também defendeu outras decisões do STF contra as empresas de tecnologia norte-americanas que Trump chamou de tentativa de censura e de cercear a liberdade de expressão dos cidadãos. "Para operar em nosso país, todas as empresas nacionais e estrangeiras estão submetidas à legislação brasileira", respondeu.

O que aconteceu?

A indisposição entre Brasil e Estados Unidos começou a escalar nesta quarta-feira a partir de uma nota publicada pela embaixada norte-americana reforçando o apoio de Trump à família Bolsonaro. "A perseguição política contra ele , sua família e seus apoiadores é vergonhosa e desrespeita as tradições democráticas do Brasil", diz. À declaração se seguiu uma reação do Ministério das Relações Exteriores.

O Itamaraty advertiu o encarregado de negócios da embaixada norte-americana, Gabriel Escobar. A diplomacia brasileira disse que a declaração dos Estados Unidos foi uma "intromissão indevida e inaceitável". À tarde, o presidente Donald Trump ameaçou impôr tarifas ao mercado brasileiro.

Em declaração pública àquela altura, Trump afirmou o Brasil não era bom para os Estados Unidos e indicou a aplicação de sobretaxas sobre as exportações. A indisposição do norte-americano com o país se agravou após a reunião do Brics. Ele considerou que o grupo de países pretendia destruir o dólar.

Trump cumpriu a promessa horas mais tarde com uma carta dirigida ao presidente Lula, e aproveitou a oportunidade para criticar o Supremo Tribunal Federal (STF) e o inquérito do golpe que corre contra Jair Bolsonaro (PL) e aliados por crimes contra a democracia. Trump decidiu que os produtos brasileiros serão sobretaxados em 50% a partir de 1º de agosto. Hoje o Brasil paga 10% em taxas sobre os produtos dirigidos aos Estados Unidos. A tarifa estava em vigor há três meses.

O norte-americano não descartou que novos aumentos ocorreram e declarou que as tarifas só serão revistas se o Brasil decidir pela abertura de mercados comerciais hoje fechados com os Estados Unidos. “Se, por qualquer razão, o senhor decidir aumentar suas tarifas, qualquer que seja o valor escolhido, ele será adicionado aos 50% que cobraremos. Por favor, entenda que essas tarifas são necessárias para corrigir os muitos anos de tarifas e barreiras tarifárias e não-tarifárias do Brasil”, declarou Trump na carta.

“Poderemos, talvez, considerar um ajuste nesta carta. Essas tarifas podem ser modificadas, para cima ou para baixo, dependendo do relacionamento com seu país. O senhor nunca ficará decepcionado com os Estados Unidos da América”, finalizou Trump.

Crítica ao STF

A carta escrita ao presidente Lula por Donald Trump cita nominalmente Bolsonaro e tece críticas à atuação do Supremo. O norte-americano fala de “ataques” do Brasil às eleições e "violação da liberdade de expressão dos americanos". Ele se refere aos despachos do ministro Alexandre de Moraes contra empresas de tecnologia norte-americanas, como Rumble.

Em um dos episódios, ele determinou o bloqueio do X por descumprimentos de decisões e inadimplência no pagamento de multas impostas à rede. Trump também atacou a ação penal em julgamento no STF em que Bolsonaro é réu por tentativa de golpe de Estado.

O inquérito se debruça sobre uma série de ações atribuídas a Bolsonaro e a aliados dele para mantê-lo no poder após a derrota para Lula nas eleições presidenciais. A ação nasceu de uma denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Preocupação com o Brics

A posição de Trump, ainda que cite Bolsonaro, ocorre após a reunião da cúpula do Brics no Rio de Janeiro. O norte-americano considerou que as políticas do grupo de países são contra os Estados Unidos. O Brics reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e, em declaração dos líderes no domingo (6), criticou as medidas protecionistas adotadas no mercado global.

"Reiteramos nosso apoio a um sistema multilateral de comércio baseado em regras, aberto, transparente, justo, inclusivo, equitativo, não discriminatório e consensual, com a OMC em seu núcleo, com tratamento especial e diferenciado (TED) para seus membros em desenvolvimento", diz o documento.

Governistas culpam Eduardo

O anúncio de Trump repercutiu imediatamente na Câmara dos Deputados. O líder da bancada do PT, Lindbergh Farias, reagiu às sanções. Ele disparou críticas à posição de Donald Trump e avaliou que a imposição de sobretaxas às exportações brasileiras é um ataque às instituições e à democracia. O deputado disse que as sanções, entretanto, não serão suficientes para frear o julgamento de Jair Bolsonaro (PL) no Supremo.

"Eu não consigo lembrar na história de um ataque tão grande à soberania. Ao atacar o Supremo estão atacando uma instituição democrática brasileira, um poder independente", afirmou. "A resposta do Brasil será um país unido em apoio ao Supremo e ao julgamento independente. Não vai ser um governante de país estrangeiro que impedirá que a Justiça brasileira faça seu trabalho", completou.

O líder do PT também atribuiu ao deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) a responsabilidade pelas sanções impostas ao mercado brasileiro. "Não tenho dúvidas de que seja uma articulação construída pelo Eduardo Bolsonaro", disparou.

Pressão sobre produtos brasileiros

Com o anúncio de Trump, alguns setores da economia brasileira serão mais prejudicados. Entre eles estão as indústrias de alumínio e aço, que já tinham uma alíquota de 25% estabelecida por Trump anteriormente. A nova taxação impõe, agora, uma tarifa de 75%.

Do total de produtos comercializados com outros países pelo Brasil em 2024, cerca de 12% do volume total foi destinado aos EUA. Os principais produtos exportados à indústria norte-americana pelo Brasil são óleos brutos de petróleo, produtos semimanufaturados de aço e ferro, aviões e café.

O Tempo

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