PARADOXOS DO DESENVOLVIMENTO
Laura Carvalho analisa desconexão entre melhora econômica e percepção sob Lula
Economista da FEA-USP aponta que redes sociais e novas aspirações explicam a insatisfação popular, mesmo com indicadores de emprego e renda em trajetória de alta.
Embora o desemprego tenha atingido a marca de 5,6% em maio de 2026 e o país registre crescimento econômico consecutivo entre 2023 e 2025, uma parcela significativa da população mantém uma percepção negativa sobre a economia. A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, busca entender o motivo desse descolamento entre os dados macroeconômicos e o sentimento das famílias.
Em artigo recente, "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia", coescrito com Guilherme Klein Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisadora identifica quatro pilares para esse mal-estar: a inflação persistente, a comparação com o ciclo de mobilidade dos anos 2000, o efeito das redes sociais nos desejos de consumo e a frustração de uma geração escolarizada que não encontra postos de trabalho condizentes com sua formação.
"Com as redes sociais, o padrão de consumo de classes mais ricas ou de outros países se torna acessível ao olhar de forma instantânea. Isso homogeneíza aspirações e gera uma insatisfação inédita na história", avalia Carvalho. Segundo a economista, a nova classe média brasileira, incluída no mercado de consumo nas gestões anteriores, hoje possui demandas que vão além do acesso básico a bens como eletrodomésticos.
Para reverter esse quadro e iniciar um novo ciclo de prosperidade, Carvalho defende que o governo brasileiro avance na agenda de tributação sobre a riqueza. Para ela, a estrutura atual, que permite a perpetuação da concentração de patrimônio e a transferência de renda para os mais ricos via juros da dívida pública, precisa ser confrontada. A economista argumenta que o custo distributivo da dívida, somado à necessidade de expandir serviços públicos de qualidade, são pontos fundamentais para reduzir a desigualdade e devolver o otimismo à sociedade.
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