SOFRIMENTO SEM FIM
Itamaraty confirma tocantinense ‘desaparecido em combate’ na Ucrânia
Mãe de Eliseu Delis Pereira Martins enfrenta dor e incerteza após última ligação em 13 de abril de 2026. Órgão federal presta assistência consular.
A família Martins vive dias de profunda angústia e incerteza após a confirmação, por parte do Itamaraty, de que o tocantinense Eliseu Delis Pereira Martins foi notificado pelas autoridades ucranianas como "desaparecido em combate" na Ucrânia. A informação, que chocou a mãe Joana Maria Martins e seus familiares nesta domingo, 10 de maio de 2026, eleva o sofrimento de uma família que busca respostas sobre o paradeiro de Eliseu, que se voluntariou para o conflito atraído por uma oferta de trabalho que parecia segura, mas o levou para a perigosa linha de frente.
A família relata que, em março de 2026, Eliseu deixou a Bélgica rumo à Polônia, após ser seduzido por uma proposta para atuar como voluntário na Ucrânia. A mãe, Joana Maria Martins, detalha que a oferta prometia um salário atraente e a reconstrução da cidade, sem mencionar o envolvimento direto no conflito armado.
"Eles informavam que era a reconstrução da cidade, que o salário era bom e que tinha operador de drone, tinha vaga para quem queria cozinhar; em momento nenhum mencionaram frente de guerra", desabafa Joana. Em 4 de março de 2026, Eliseu comprou a passagem. Ao chegar, revelou à mãe: "Mãe, eu vou fazer um treinamento de 60 dias para poder participar da linha de frente". A realidade se mostrou brutalmente diferente do prometido.
Eliseu Delis Pereira Martins, natural de Miracema do Tocantins, já residia na Europa desde janeiro de 2025. Ele decidiu se inscrever para atuar no conflito em dezembro de 2025, mas somente viajou para a Ucrânia em março de 2026. A mãe tentou em vão alertar o filho sobre os perigos iminentes, mas Eliseu explicou que, após se apresentar, não tinha mais controle sobre a função designada.
"Eu falei: você não vai, não", recorda Joana, com a voz embargada. "E ele me respondeu: 'Mãe, a gente vem para cá e é uma coisa... Quando a gente chega aqui, é outra. Eu não posso escolher, eu simplesmente sou mandado e eu tenho que fazer isso'". As palavras de Eliseu revelam a impotência de quem se vê enredado em uma situação da qual não pode mais escapar.
O último contato de Joana com o filho aconteceu em 13 de abril de 2026, por videochamada. Posteriormente, a mãe soube da possível morte de Eliseu pelas redes sociais. Em 29 de abril de 2026, ao buscar informações desesperadamente, Joana recebeu a dolorosa confirmação de um outro brasileiro que atua na Ucrânia: "Me ligou para falar que ele [Eliseu] tinha tombado", conta, referindo-se à gíria militar para "morrer em combate".
Até esta quarta-feira, 6 de maio de 2026, Joana não possuía detalhes sobre a data exata da morte de Eliseu nem sobre o paradeiro de seu corpo. A família entrou em contato com o Itamaraty buscando respostas, mas até então, a angústia da falta de informação persistia.
"Eu acordo pensando nele, porque ele me ligava todas as vezes, ele me ligava quatro, cinco vezes ao dia. Hoje eu não recebo mais ligação do meu filho. A última vez que ele me ligou, eu vi a tristeza nos olhos dele. Hoje eu sou uma mãe que chora dia e noite", expressa Joana, em um depoimento que ilustra a profundidade da sua dor e a lacuna deixada pelo filho.
Guerra na Ucrânia
O conflito entre Ucrânia e Rússia, que motivou Eliseu a ir para o leste europeu, completou quatro anos em fevereiro de 2026. A guerra eclodiu após o exército russo assumir o controle de regiões estratégicas no leste ucraniano. Atualmente, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais estima que a Rússia controla cerca de 120 mil km² do território da Ucrânia.
Ao longo desses quatro anos, os dois países estabeleceram e violaram diversos acordos de cessar-fogo, evidenciando a complexidade e a intractabilidade do cenário. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também buscou intervir no conflito, tentando intermediar negociações para uma resolução.
Nota do Ministério das Relações Exteriores
O Ministério das Relações Exteriores, através de uma nota oficial, confirmou que o governo brasileiro, por meio da Embaixada do Brasil em Kiev, recebeu a notificação das autoridades ucranianas sobre o status de “desaparecido em combate” do cidadão brasileiro. O Itamaraty reitera que está em contato constante com a família, oferecendo assistência consular, e também com as autoridades da Ucrânia.
A nota do Ministério detalha ainda que, em situações de falecimento comprovado ou desaparecimento em combate de brasileiros reportados pelas autoridades da Ucrânia, a Embaixada do Brasil em Kiev, em coordenação com a Divisão de Comunidades Brasileiras e Assistência Consular do Itamaraty em Brasília, comunica formalmente os familiares no Brasil. Além disso, a embaixada encaminha um documento elaborado pelo governo ucraniano, orientando sobre as providências que a família deve seguir.
O Ministério das Relações Exteriores, através das Embaixadas do Brasil em Moscou e em Kiev, permanece à disposição para prestar assistência consular ao cidadão brasileiro.
O atendimento consular do Estado brasileiro ocorre mediante contato do cidadão interessado ou de sua família, conforme o caso. A atuação consular do Brasil se baseia rigorosamente nas legislações internacional e nacional.
É importante ressaltar que a assistência consular a cidadãos engajados em forças armadas de terceiros países possui especificidades. Estas são inerentes às obrigações contraídas no ato de alistamento e às complexas circunstâncias no terreno de operações de guerra.
Em respeito ao direito à privacidade e em observância à Lei de Acesso à Informação e ao decreto 7.724/2012, o Ministério das Relações Exteriores não divulga informações pessoais de cidadãos que solicitam serviços consulares nem fornece detalhes sobre a assistência prestada a brasileiros.
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