ALERTA DE SOBERANIA

Itamaraty alerta sobre risco de força militar dos EUA no Brasil após classificação de facções como terroristas

Foto do Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira.
Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em Brasília — Foto: Mateus Oliveira/MRE

Ministro Mauro Vieira aponta para precedentes na América Latina como base para preocupação. Brasil critica medida unilateral de Donald Trump.

O chanceler Mauro Vieira comunicou à Câmara dos Deputados que existe um risco iminente de os Estados Unidos empregarem força militar contra o Brasil. A preocupação surge após o governo de Donald Trump classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, uma decisão tomada sem consulta prévia formal ao Brasil. O alerta, que tem como base episódios recentes na região, visa destacar as possíveis consequências dessa classificação unilateral para a soberania nacional.

Segundo o documento enviado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a designação de organizações criminosas como terroristas não trará benefícios concretos para a cooperação internacional entre EUA e Brasil no enfrentamento ao crime organizado. Pelo contrário, a classificação unilateral pode ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras, especialmente nas esferas financeira, migratória e penal. Vieira ressaltou explicitamente o “risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional”, citando precedentes na América Latina.

A medida norte-americana, anunciada no fim de maio, classificou o CV e o PCC como “duas das maiores organizações criminosas mais violentas do Brasil”, conforme declaração do Departamento de Estado dos EUA. Desde então, o governo brasileiro tem criticado a decisão, argumentando que ela não contribui para desestruturar as facções nem para combater o crime organizado em nível internacional. Há ainda a preocupação de que a medida possa gerar consequências adversas para pessoas e empresas sem ligação direta com as atividades criminosas.

Na resposta ao deputado Evair de Melo, Mauro Vieira detalhou os casos que fundamentam a preocupação brasileira. Um dos exemplos citados foi a operação dos Estados Unidos na Venezuela em 3 de janeiro, que culminou no sequestro do ditador Nicolás Maduro. Essa intervenção militar direta foi a primeira na América Latina em 36 anos, sucedendo a derrubada do ditador do Panamá, Manuel Noriega. A operação ocorreu após meses de tensões e foi justificada pelo combate ao tráfico internacional de drogas, embora sem apresentação pública de provas concretas sobre os veículos atacados.

Outro episódio mencionado foi a realização de ataques contra barcos no Oceano Pacífico, próximo à costa da Colômbia, em outubro de 2025, pelo governo de Donald Trump. As embarcações teriam sido operadas por traficantes de drogas, segundo o governo americano, que as rastreou antes dos ataques. Essas ações compuseram uma ofensiva contra cartéis latino-americanos, em meio a tensões crescentes com o governo de Nicolás Maduro, alimentando temores de uma iminente operação terrestre e bombardeios em solo venezuelano.

A pressão dos Estados Unidos sobre Cuba nos últimos meses também foi destacada, com sugestões de Donald Trump sobre a possibilidade de tomar a ilha à força. Em 20 de maio, o governo dos EUA acusou formalmente Raúl Castro, ex-presidente de Cuba, de uma série de crimes, intensificando a tensão bilateral. Essa escalada de ações e ameaças militares no Caribe remete a medidas semelhantes adotadas pelos EUA semanas antes da ofensiva contra a Venezuela, evidenciando um padrão de atuação que preocupa o Brasil.

Entretanto, uma eventual ação militar contra Cuba pode gerar questionamentos no direito internacional. As justificativas apresentadas pelos EUA podem não ser suficientes para respaldar uma intervenção militar, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). O Brasil, ao se opor à classificação das facções como terroristas, reitera sua defesa não das organizações em si, mas da legislação brasileira e do direito internacional sobre soberania. O entendimento é que cabe às instituições brasileiras a resolução de problemas internos, ainda que com cooperação bilateral.

O Brasil já apresentou aos Estados Unidos uma proposta de cooperação bilateral para o enfrentamento do crime organizado, mas ainda aguarda resposta. A postura brasileira defende a autonomia nacional e a aplicação do direito internacional, buscando evitar que a classificação unilateral de facções criminosas se torne um pretexto para intervenções externas.

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