TEMOR DE DEVASTAÇÃO
Israel expande ofensiva no Líbano, atingindo Beirute e áreas além do rio Litani
Forças israelenses avançam sobre o Líbano após cessar-fogo; ataques já atingiram a capital Beirute, intensificando crise humanitária.
As forças israelenses expandiram sua ofensiva no Líbano, ultrapassando o rio Litani e atingindo a capital Beirute, em uma escalada que gera temor de devastação semelhante à ocorrida em Gaza. A decisão, anunciada nesta sexta-feira (29) pelo governo de Binyamin Netanyahu, ocorre mesmo com um cessar-fogo teórico em vigor há mais de 40 dias. O movimento é justificado pelo governo israelense como necessário para remover ameaças ao seu território e soldados.
Desde o início da trégua em 17 de abril, as forças israelenses já mataram pelo menos 600 pessoas no Líbano, com mais de 3.200 mortos e 9.700 feridos desde o começo do conflito em 1º de março, segundo o Ministério da Saúde libanês. Do lado israelense, 10 soldados foram mortos durante este período. A ofensiva, que antes se concentrava em comunidades no sul do Líbano, agora inclui ataques à capital.
A jornalista libanesa Mariam Shehab descreve o cotidiano como um estado de alerta constante, impactado por ameaças aéreas e ataques repentinos. A crise humanitária se agrava com 1,2 milhão de pessoas deslocadas – mais de 20% da população. 'Não se trata apenas do aumento dos preços, trata-se de pessoas que já haviam perdido a estabilidade e agora estão perdendo o que restava dela', afirma Shehab.
O Exército de Israel, por meio de porta-voz, assegura que não tem a intenção de causar dano a civis libaneses e que emite alertas de retirada. No entanto, o intelectual palestino Yezid Sayigh aponta para uma destruição sistemática em vilas e cidades do sul libanês, que, segundo ele, não possui mais qualquer objetivo militar. 'Isso é o que vimos em Gaza, e isso é o que estamos vendo no sul do Líbano', disse Sayigh, pesquisador do Centro Carnegie para o Oriente Médio.
As Forças Armadas de Israel argumentam que o Hezbollah militarizou as aldeias, o que justifica a destruição de instalações ligadas ao grupo. Segundo a corporação, a estratégia é combater diretamente as ameaças, não apenas bombardear áreas. Apesar das declarações, há paralelos entre as operações, com Israel afirmando que 'há uma organização terrorista em cada lado, organizações que iniciaram guerra contra Israel'.
Organizações como Médicos Sem Fronteiras (MSF) atuam para mitigar os impactos da crise humanitária, com cerca de 600 trabalhadores no Líbano. A psicóloga brasileira Tatiane Francisco, que atua para a MSF, relata que a saúde mental é uma das maiores necessidades entre os libaneses afetados pelos ataques. Muitos dos trabalhadores da organização são libaneses que também lidam com familiares deslocados e a perda de entes queridos.
Em meio a esse cenário, o governo libanês, liderado pelo presidente Joseph Aoun, enfrenta pressão. O Hezbollah, por sua vez, recusa a abertura de conversas com Israel, enquanto parte da população, segundo a jornalista Mariam Shehab, desconfia de um governo que 'já provou muitas vezes que é fraco'. Outros analistas apontam que o grupo pode ter empurrado o país para a guerra, com auxílio financeiro do Irã.
O Exército israelense afirma que se preocupa mais com o povo libanês do que o Hezbollah, tendo agido para mantê-los fora do conflito. Contudo, Sayigh observa um padrão de campanha constante contra jornalistas, mídia e trabalhadores da saúde no sul do Líbano, um padrão que, segundo ele, é 'exatamente o mesmo que seguiram em Gaza'.
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