TARIFA AMERICANA SOBRE BRASIL
Indústria dos EUA pode sentir impacto de tarifaço, diz ex-diretor da OMC
Audiência pública em Washington discute imposição de 25% sobre produtos brasileiros. Roberto Azevêdo, representante da CNI, alerta para efeitos negativos na própria produção americana.
A audiência pública entre representantes do setor produtivo e o governo dos Estados Unidos para discutir a proposta de imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros teve início nesta segunda-feira, 06/07/2026. Em entrevista à CNN, o ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Roberto Azevêdo, avaliou que a medida pode ter efeitos negativos sobre a própria indústria americana, impactando sua dignidade produtiva e competitividade no mercado global.
Azevêdo, que representa a CNI (Confederação Nacional da Indústria) nas negociações em Washington, explicou o funcionamento do processo. As apresentações orais, com duração máxima de cinco minutos, ocorrem ao longo de dois dias, em diversos painéis diários. Os expositores apresentam seus argumentos diante de um comitê oficial composto por representantes do USTR, do Departamento do Comércio e do Departamento de Estado, que podem fazer perguntas pontuais ao final de cada fala.
Os argumentos são divididos em duas frentes: a técnica e a política. A primeira visa rebater as justificativas do USTR para a imposição das tarifas, demonstrando que as alegações não se sustentam fática nem juridicamente. A segunda frente aborda a importância da colaboração entre Brasil e Estados Unidos e os riscos de prejudicar a integração das cadeias produtivas. Segundo Azevêdo, a medida seria um tiro no pé, especialmente para os próprios Estados Unidos.
O especialista ressaltou que a decisão americana integra uma política industrial mais ampla que afeta cerca de 90 países, não sendo uma questão bilateral. O objetivo é duplo: estimular a reindustrialização dos Estados Unidos, encarecendo importações para favorecer a produção doméstica, e aumentar a arrecadação para financiar incentivos ao setor produtivo já aprovados pelo Congresso.
Apesar de reconhecer que reverter a imposição das tarifas é improvável – informação confirmada em reuniões no Departamento de Estado e no STR –, Azevêdo vislumbra margem para ampliar a lista de produtos isentos. Atualmente, mais de 4 mil produtos brasileiros, um terço das exportações para os EUA, serão impactados. Essa sobretaxação pode encarecer, e em alguns casos inviabilizar, a produção nos próprios Estados Unidos, afetando a segurança econômica de suas empresas e trabalhadores.
O caminho mais eficaz para obter exceções, segundo Azevêdo, tem sido a mobilização de aliados dentro dos EUA – empresas e clientes americanos que dependem de insumos brasileiros e que exercem pressão direta sobre as autoridades. Essa estratégia tem se mostrado mais efetiva do que as negociações diretas, buscando proteger a dignidade e a continuidade das operações de setores vitais para ambas as economias.
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