ECOLOGIA E PRESERVAÇÃO

IDEMA e UFRN criam maior refúgio ambiental do RN

IDEMA e UFRN criam maior refúgio ambiental do RN

Nova unidade de conservação protege 12 mil hectares da Caatinga. Esperança para aves e mamíferos ameaçados no Seridó.

O Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (IDEMA) e a UFRN anunciaram, em 28 de abril de 2026, a criação do Refúgio de Vida Silvestre Serra das Araras (REVIS Serra das Araras). A decisão, tomada em celebração ao Dia da Caatinga, institui a maior unidade de conservação do Rio Grande do Norte, abrangendo mais de 12 mil hectares nos municípios de Cerro Corá, São Tomé e Currais Novos. Este marco representa uma esperança crucial para a sobrevivência da fauna e flora da Caatinga, um bioma exclusivamente brasileiro que enfrenta severa ameaça de desertificação e desmatamento, impactando diretamente o equilíbrio ambiental e a qualidade de vida das comunidades potiguares.

Nascido de uma proposta de pesquisadores do Projeto Caatinga Potiguar, em parceria com o poder público, o REVIS Serra das Araras surge como um escudo contra a extração desenfreada de madeira e a progressão do deserto no coração do Seridó. Sua vasta extensão o torna um bastião na luta pela preservação.

Em entrevista exclusiva ao BNews RN, o professor Carlos Roberto, do Departamento de Ecologia (Decol) e membro do Projeto Caatinga Potiguar, sublinhou a relevância da nova unidade. "A conservação da biodiversidade potiguar é nossa responsabilidade, e precisamos criar mecanismos para que ela seja efetivamente protegida", afirmou o especialista. Ele também destacou a origem acadêmica da proposta: "O fato de a proposta ter surgido dentro de projetos liderados pelo Departamento de Ecologia e Departamento de Botânica e Zoologia é uma indicação clara de que os pesquisadores e pesquisadoras das universidades públicas desenvolvem pesquisas de grande relevância para a sociedade."

O REVIS é projetado para harmonizar atividades econômicas com a conservação da vida selvagem. O professor Roberto explicou que um plano de manejo rigoroso será essencial para organizar as atividades permitidas dentro do refúgio. "É claro que uma das atividades essenciais é a restauração vegetal de áreas fundamentais para assegurar a existência da ararinha-maracanã e do papagaio-verdadeiro", exemplificou, ressaltando o foco na recuperação de espécies icônicas.

A missão primordial do refúgio é salvaguardar a rica biodiversidade da Caatinga. Entre a fauna, a expectativa é proteger mais de 230 espécies de aves, incluindo o ameaçado papagaio-verdadeiro e a ararinha-maracanã, além de diversos mamíferos. Na flora, o REVIS abriga uma variedade de cactos, como mandacaru, facheiro, palma e quipá, e árvores adaptadas à estiagem que perdem suas folhas no período seco.

Estudos conduzidos pela UFRN, mencionados pelo professor Carlos Roberto, pintam um quadro preocupante sobre a Caatinga potiguar. "Os estudos demonstram que a Caatinga foi bastante desmatada e as manchas de vegetação que sobraram encontram-se bastante alteradas pelos efeitos de extração de lenha, caça, fogo, rodovias, linhas de transmissão e aerogeradores", detalhou. O Projeto Caatinga Potiguar revelou ainda que muitas espécies de mamíferos já desapareceram do Rio Grande do Norte ou têm populações criticamente reduzidas. "Onças pintadas não existem mais, enquanto onças pardas e porcos selvagens são praticamente inexistentes", lamentou o pesquisador.

Apesar dos avanços como a criação do REVIS, o professor Roberto enfatiza que o governo do Rio Grande do Norte e o governo federal precisam intensificar os esforços para fortalecer a rede de Unidades de Conservação do estado e garantir a plena proteção da biodiversidade local.

A urgência da situação não é novidade. Em meados de 2025, o BNews RN já entrevistava o então superintendente do IBAMA no estado, o professor Rivaldo Fernandes, que alertava para o estágio avançado de desertificação na Caatinga potiguar, especialmente no Seridó.

Dados do MapBiomas — uma rede colaborativa de ONGs, universidades e empresas de tecnologia que monitora o uso do solo no Brasil desde 1985 — confirmam que todos os estados nordestinos seguem perdendo suas áreas naturais de Caatinga. Embora Piauí (82%), Ceará (68%), Pernambuco (60%), Bahia (58%) e Paraíba (56%) ainda possuam maior proporção de áreas naturais, estados como Minas Gerais (50%), Rio Grande do Norte (50%), Alagoas (27%) e Sergipe (24%) apresentam cenários mais críticos no ano passado. Apenas 10% do território da Caatinga está hoje protegido por Unidades de Conservação, somando 8,2 milhões de hectares.

A desertificação é uma realidade alarmante e de conhecimento global. Em 2021, o Rio Grande do Norte foi destaque no renomado jornal americano The New York Times. A reportagem, que ilustrou sua capa com uma olaria em Parelhas, no Seridó potiguar, descreveu a lenta e preocupante transformação de um "Nordeste fértil" em deserto, ecoando a análise do Instituto Humanas Unisinos. O município vizinho, Carnaúba dos Dantas, também foi mencionado, onde um correspondente presenciou o agravamento de um processo de desertificação que assola o planeta. "É um desastre natural", afirmou a reportagem, explicando como a produção de telhas, que demanda água, madeira e argila — todas escassas na região — acelera este processo devastador.

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