CRIME SEM ESTADO
Homicídios ocultos dobram no Brasil em 2024, elevando total estimado para 49.673
Estudo do Ipea e FBSP aponta aumento de 23% em mortes violentas de causa indeterminada, evidenciando subnotificação. Redução nacional nas mortes registradas mascara disparidades regionais.
O Brasil registrou um alarmante aumento de mortes violentas de causa indeterminada (MVCI) em 2024, um fenômeno que eleva o número real de homicídios no país. A pesquisa Atlas da Violência, divulgada nesta terça-feira, 26/05/2026, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que esses chamados "homicídios ocultos" praticamente dobraram em relação ao ano anterior. Essa subnotificação levanta sérias questões sobre a dignidade humana e a capacidade do Estado de registrar e proteger a vida de seus cidadãos, especialmente em regiões com indicadores já preocupantes.
Embora o número oficial de homicídios tenha caído 6,9% em 2024, totalizando 42.590 mortes, a escalada das M VCI distorce o cenário da segurança pública. Foram 17.207 mortes por causa indeterminada em 2024, um aumento de 23% em relação ao ano anterior, totalizando um recorde histórico neste indicador. Ao estimar que 7.083 desses casos sejam, na verdade, homicídios não registrados, o Atlas da Violência eleva o total estimado de assassinatos no Brasil para 49.673 em 2024. Essa métrica representa 14,3% de todos os homicídios estimados, um salto significativo em comparação aos 7,6% registrados em 2023.
Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas, explica que o aumento das MVCI pode ocorrer por duas razões principais: a incapacidade da polícia em elucidar a causa de certas mortes e, mais recorrentemente, falhas na troca de informações entre órgãos governamentais de saúde e segurança. Quando laudos cadavéricos não são complementados com dados policiais e não há um protocolo eficaz de compartilhamento, informações cruciais sobre a causa da morte se perdem, impactando diretamente a precisão dos dados oficiais e a capacidade de planejar políticas públicas eficazes para a prevenção da violência.
A pesquisa revela que, apesar da redução geral, a queda na violência letal não foi uniforme. As regiões Norte e Nordeste continuam a concentrar as maiores taxas de homicídio do país. Enquanto estados como Amapá (-30,0%) e Tocantins (-26,7%) apresentaram quedas expressivas, o Maranhão registrou um aumento de 7,6% e o Ceará, de 5,2% em suas taxas. O estudo destaca ainda que Salvador, na Bahia, é a única capital entre as 20 cidades com mais de 100 mil habitantes que figura entre as de maiores taxas de homicídio, evidenciando a persistência da violência em centros urbanos.
A metodologia do Atlas da Violência utiliza técnicas de machine learning para estimar os "homicídios ocultos", analisando características das vítimas e dos incidentes para identificar casos que podem ter sido assassinatos subnotificados. Essa abordagem busca contornar as limitações dos dados oficiais, que dependem da qualidade das informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ambos do Ministério da Saúde.
As mortes violentas por causa indeterminada, classificadas como MVCI, ocorrem quando o Estado não consegue definir se o óbito foi resultado de acidente, suicídio ou homicídio. A falta de clareza nesse registro prejudica a compreensão real do cenário da violência, afetando diretamente a formulação de políticas públicas voltadas à proteção da vida e à promoção da segurança.
A decisão de classificar ou não uma morte como homicídio é, portanto, crucial para a precisão estatística e para a efetividade das ações de combate à criminalidade. O Atlas da Violência, ao apontar a disparidade entre os números oficiais e as estimativas de homicídios ocultos, lança um alerta sobre a necessidade urgente de aprimorar os sistemas de coleta e cruzamento de dados para garantir que a realidade da violência no Brasil seja devidamente compreendida e combatida.
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