ATLAS DA VIOLÊNCIA
Homicídios ocultos alteram ranking de estados menos violentos no Brasil, aponta Atlas da Violência 2026
Estudo do Ipea e FBSP revela que números oficiais subestimam mortes violentas. São Paulo perde liderança entre estados com menores taxas.
O Brasil pode ter registrado 7.083 homicídios a mais em 2024 do que apontam os números oficiais. Essa estimativa provém do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26/05/2026), uma pesquisa conjunta do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A descoberta altera significativamente o panorama da criminalidade no país, especialmente no ranking de estados menos violentos.
A pesquisa detalha que os chamados Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) são mortes violentas cuja causa básica não foi identificada pelos registros estaduais – seja por acidente, suicídio ou homicídio. Ao aplicar uma metodologia probabilística, os pesquisadores do Ipea estimam que parte dessas mortes sejam, na verdade, homicídios não declarados. A soma destes aos números oficiais eleva a estimativa total de homicídios no Brasil em 2024 de 42.590 para 49.673, elevando a taxa nacional de 20,1 para 23,4 por 100 mil habitantes.
Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência e técnico do Ipea, explica que "quando uma pessoa morre de forma violenta, o médico legista precisa indicar a causa da morte. Mas, muitas vezes, só examinando o corpo, ele não consegue saber se aquela morte foi homicídio, suicídio ou acidente. A informação precisa ser completada com dados da polícia. Quando isso não acontece, por falta de integração ou compartilhamento, a morte pode ficar registrada como causa indeterminada".
A inclusão dos homicídios ocultos impacta diretamente a percepção de segurança pública. Nos registros oficiais, São Paulo apresentava a menor taxa de homicídios do país em 2024, com 6,6 mortes por 100 mil habitantes, seguido por Santa Catarina, Distrito Federal, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Contudo, ao considerar as estimativas do Atlas, São Paulo cai para a terceira posição, com uma taxa estimada de 12,8. Santa Catarina assume a liderança como o estado menos violento, com 8,8 mortes por 100 mil habitantes, e o Distrito Federal figura em segundo lugar com 10,9.
Mudanças no cenário de violência
No ranking dos estados com maiores taxas de homicídio, o Amapá mantém a primeira posição, com a taxa oficial de 45,7 e estimada de 47,1 por 100 mil habitantes. Contudo, o Ceará sobe drasticamente, saindo da quinta para a segunda posição com a taxa estimada de 43,7, ante os 34,3 registrados oficialmente. O estudo também aponta que os homicídios ocultos cresceram 88,6% em 2024 em relação ao ano anterior, passando de 3.755 para 7.083. Essa alta fez com que representassem 14,3% do total de homicídios estimados, um aumento significativo em relação aos 7,6% de 2023.
As maiores altas na taxa estimada entre 2023 e 2024 foram registradas em Minas Gerais (+25%), Ceará (+23,8%) e São Paulo (+10,3%). Por outro lado, Amapá (-28,3%), Tocantins (-22,3%) e Sergipe (-21,4%) apresentaram as maiores quedas na taxa estimada. O Atlas utiliza dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e uma metodologia de aprendizado de máquina para estimar as MVCI, identificando uma piora na capacidade de determinar a intencionalidade das mortes violentas no país.
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