FIM DO PRAZO ELEITORAL
Governo e Congresso aceleram gastos com olho nas eleições
Programas sociais e ampliação de teto para MEI marcam ofensiva em meio a debates sobre equilíbrio fiscal e disputa por benefícios.
O Governo federal intensificou sua agenda de medidas com forte apelo popular nesta terça-feira, 30 de junho de 2026, a menos de uma semana do início do período eleitoral, que restringe anúncios e eventos públicos.
A iniciativa se manifesta com o lançamento da nova fase do programa "Desenrola Adimplentes" e a entrega de uma proposta para ampliar o teto de faturamento dos Microempreendedores Individuais (MEI) ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Ambas as ações foram marcadas por intensa movimentação no Planalto.
A nova etapa do Desenrola oferece uma linha especial de crédito com juros subsidiados de até 1,99% ao mês. O benefício é destinado a trabalhadores informais que mantêm suas contas em dia ou com até 90 dias de atraso, um público que tradicionalmente enfrenta barreiras no acesso ao crédito. Uma das condições para participar é que o beneficiário se abstenha de apostar em esportes por seis meses.
MEI e impacto fiscal
A proposta apresentada a Hugo Motta (Republicanos-PB) sugere elevar o teto de faturamento anual para MEI de R$ 81 mil para R$ 140 mil. Essa mudança acarretaria um impacto fiscal estimado em R$ 50 bilhões em renúncia de arrecadação.
A iniciativa foi tratada como prioridade pelo Planalto, mesmo em um dia que registrou um déficit primário de R$ 53,2 bilhões em maio. O cenário evidencia o desafio de equilibrar estímulos econômicos com a saúde das contas públicas.
Christopher Garman, diretor-executivo da Eurasia Group, avaliou que o conjunto de medidas anunciado pelo Governo, que inclui isenção de imposto de renda, descontos em gás de cozinha e energia elétrica, além do Desenrola, tem contribuído para uma melhora na aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
"Em meados de abril, a aprovação do presidente estava com 44%; hoje está entre 47% e 48%", apontou Garman. Ele pondera, contudo, que não seria justo afirmar que o Governo abandonou a preocupação fiscal. "O governo está tentando limitar o tamanho do dano, mas com certeza está tentando melhorar a sua imagem também", observou.
A disputa de "bondades" entre Executivo e Legislativo
A âncora da CNN Thais Herédia interpreta a dinâmica atual como uma disputa entre o Governo e o Congresso Nacional sobre quem distribui mais benefícios, cada um com seus próprios meios.
"O governo e o Congresso Nacional estão naquele modo assim: um faz uma bondade, a bondade do governo é bacana, a bondade do Congresso Nacional é maléfica", disse. Segundo ela, enquanto o Executivo cria programas que não impactam diretamente as contas primárias, o Legislativo atua por meio de pisos salariais para categorias específicas e aposentadorias em regimes especiais, o que se reflete diretamente no desequilíbrio fiscal.
Herédia mencionou uma análise de Mansueto Almeida e Samuel Pessoa, em relatório para o BTG, que indica que o Governo Lula 3 caminha para registrar, em quatro anos, um crescimento de despesas superior a 21%, contra um crescimento do PIB de 11%. "Você não precisa entender de política fiscal para saber que isso é insustentável", declarou.
Ela também recorreu à expressão do economista Marcos Lisboa para descrever o cenário: "O Brasil é o país da meia entrada. Quanto mais meia entrada, mais caro vai ficar o custo do país para aqueles que pagam."
Caixinha de ferramentas esgotada antes do período eleitoral
Daniel Rittner, diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, avalia que, com a aproximação do "defeso eleitoral", as oportunidades para novos anúncios estão praticamente esgotadas. "A caixinha de ferramentas já foi toda gasta", afirmou.
Para ele, a medida que poderia coroar o pacote de benefícios seria a aprovação da PEC que visa o fim da escala de trabalho 6x1. No entanto, as sinalizações do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), indicam uma possível postergação da votação para após as eleições.
Rittner destacou que programas recentes, como o "Desenrola Adimplentes" e o Move Brasil, demonstram uma tentativa do Governo de dialogar com os trabalhadores informais. Este segmento, composto por aproximadamente 40 milhões de pessoas, historicamente demonstra resistência ao PT.
"São 40 milhões de trabalhadores, 40 milhões de votos, não são sindicalizados, não é a turma que tradicionalmente cabe no discurso eleitoral do PT", ressaltou.
PEC 6x1: aprovação antes das eleições ainda é possível, diz Garman
Sobre a proposta que extingue a escala 6x1, Garman considera provável sua aprovação antes das eleições, com uma probabilidade de 70%, apesar de o calendário estar apertado. "Achamos que a pressão política no ano eleitoral, com dois terços do Senado em jogo, tende a levar a essa votação antes das eleições", disse.
Ele acrescentou que Davi Alcolumbre (União-AP) tem buscado uma reunião com Lula e "está jogando mais duro" diante de um desgaste acumulado.
Daniel Rittner ponderou que o ambiente no Senado difere da Câmara, onde a PEC 6x1 foi aprovada rapidamente. Segundo ele, deputados que votaram a favor do fim da escala receberam elogios do eleitorado, mas também foram "duramente cobrados pelo setor produtivo" ao retornarem às suas bases.
"Esse clima já começa a chegar no Senado, o que tem feito Alcolumbre botar a bola ali no meio de campo para analisar com um pouco mais de cautela a situação", concluiu.
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