ALÍVIO FINANCEIRO URGENTE

Governo de Lula estuda renegociar R$ 120 bilhões do Fies

Inadimplência no Fies chega a 65% e entra no pacote de renegociação de Lula a 6 meses da eleição.
Infografia/Poder360 - 3.mai.2026: Inadimplência no Fies chega a 65% e entra no pacote de renegociação de Lula a 6 meses da eleição.

Inadimplência atinge 65% dos contratos; regras para Desenrola 2.0 ainda indefinidas, mas expectativa é alta.

O governo federal, por meio do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), anunciou o lançamento do programa Desenrola 2.0 nesta segunda-feira, 03 de maio de 2026, com a intenção de renegociar uma impressionante dívida de R$ 120 bilhões. Embora o Desenrola 2.0 vise a abranger diversas modalidades de débitos, a inclusão do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) – onde alarmantes 65,1% dos 2,47 milhões de contratos ativos estão inadimplentes – ainda está em fase de estudos, sem regras definidas ou previsão de implementação. Esta indefinição gera grande expectativa para milhões de ex-estudantes que enfrentam um pesado fardo de endividamento, ao mesmo tempo em que a sustentabilidade do crédito estudantil e o orçamento federal são pressionados.

A dívida acumulada do programa cresceu sem parar nos últimos 10 anos e ultrapassou os R$ 120 bilhões. Os dados, os mais recentes disponíveis, foram solicitados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). A alta inadimplência do Fies ameaça o crédito para novos estudantes, e a edição de uma medida provisória surge como uma possibilidade para o governo. O momento não é neutro, pois a medida atinge o público jovem, que, no Brasil, tem demonstrado uma inclinação política mais à direita, e a campanha eleitoral começa em menos de seis meses.

A inadimplência no Fies atingiu em 2026 o patamar mais alto desde a criação do programa. Em 2014, auge no número de contratos, 31% dos estudantes estavam em atraso. Desde então, a dívida aumentou significativamente. Hoje, quase dois em cada três beneficiários enfrentam dificuldades. O problema concentra-se nas regiões Norte e Nordeste, onde 74,19% e 71,31% dos contratos, respectivamente, estão inadimplentes. No Sul, a taxa é consideravelmente menor, com 41,34% de atrasos.

O Fies já ofereceu condições que hoje parecem generosas. Contratos assinados antes de 2017 isentavam o aluno de qualquer pagamento durante a graduação. A cobrança começava apenas após a formatura, com um prazo de carência de 18 meses. O período para quitar a dívida chegava a três vezes a duração do curso, com juros anuais de 3,4%. Em 2016, alguns perfis de beneficiários desfrutavam até de taxa zero.

O modelo mudou no fim do governo de Michel Temer (MDB). A lei 13.530 de 2017 criou o "Novo Fies", que entrou em vigor a partir do primeiro semestre de 2018 e redesenhou as regras. A carência foi extinta. O estudante passou a pagar encargos trimestrais de até R$ 150 ainda durante o curso. Após a formatura, até 20% do salário pode ser descontado automaticamente para abater a dívida. Nos financiamentos parciais, o aluno também começou a arcar com a diferença entre o valor do curso e o que o programa cobria.

O dinheiro que sustenta o fundo provém principalmente do orçamento do Ministério da Educação (MEC) — ou seja, do Tesouro, abastecido pelos pagadores de impostos. Uma fração mínima, de R$ 474 mil em 2025, tem origem em prêmios de loteria não resgatados, administrados pela Caixa. Quando o beneficiário deixa de pagar, o rombo não se restringe ao contrato individual. Ele afeta a capacidade do fundo de financiar novos estudantes e pressiona o orçamento federal, transformando um programa concebido para ampliar o acesso ao ensino superior em um passivo fiscal.

As causas do endividamento também residem no comportamento dos tomadores desse tipo de financiamento. Uma dissertação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que entrevistou ex-estudantes financiados pelo FIES, identificou um padrão comum: os beneficiários frequentemente confundem o financiamento com uma bolsa de estudos, não planejam adequadamente a fase de amortização e chegam à pós-formação com uma renda abaixo do esperado. Uma das entrevistadas expressou a frustração: "Eles pegam a gente em um momento de inocência. A gente não consegue a profissão e tem que pagar."

No orçamento dos ex-estudantes, as parcelas do Fies competem com outras despesas essenciais. A mesma pesquisa do Ipea revelou que nove dos dez ex-alunos entrevistados priorizam o pagamento do cartão de crédito em detrimento do Fies, justificando a decisão pelo custo exorbitante dos juros do crédito rotativo. O rotativo cobra, em média, 428% ao ano – a modalidade mais cara do sistema financeiro brasileiro. O endividamento das famílias alcançou 49,9% da renda disponível bruta em fevereiro de 2026, um recorde histórico da série do Banco Central (BC) iniciada em 2005. O comprometimento mensal da renda chegou a 29,7%, também um recorde. Embora não haja dados que comprovem que estudantes recorrem ao rotativo para pagar parcelas do Fies, o cenário de aperto orçamentário – baixa renda, alta dívida estudantil e juros elevados do cartão – cria um ciclo de endividamento que o governo tenta romper com o Desenrola 2.0.

O 8º Congresso do Partido dos Trabalhadores (PT) revelou um diagnóstico comum entre os dirigentes: o partido perdeu conexão com parte de sua base social. Em tom de autocrítica, o presidente do PT, Edinho Silva, afirmou em discurso que a legenda se afastou de jovens, moradores de periferia e evangélicos. Pesquisas recentes registram queda de popularidade de Lula na juventude. Um levantamento da AtlasIntel de março de 2026 mostra que 60,2% dos jovens entre 16 e 24 anos reprovam o presidente. A Quaest chegou a resultado semelhante, com 56% dos eleitores entre 16 e 34 anos avaliando o governo de forma negativa. Em 2002 e 2022, os jovens foram a base central do apoio ao PT. A pesquisa Nexus/BTG Pactual de abril de 2026 registra um empate técnico nessa faixa etária: 37% declaram intenção de voto em Lula contra 36% em Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno. Somados os demais candidatos do campo da direita, o índice sobe para 50% entre os eleitores jovens.

A inclusão do Fies no Desenrola 2.0, como já mencionado, ainda não possui regras definidas. O FNDE informou que "estão em estudo alternativas para as renegociações de dívidas", sem previsão de implementação. O Poder360 procurou o Ministério da Educação (MEC) para obter informações sobre o peso das dívidas do Fies no orçamento das famílias, os níveis de inadimplência e a inclusão do programa no novo Desenrola. Em resposta, a pasta confirmou apenas a medida, adicionando que, em conjunto com o FNDE e os órgãos do Comitê Gestor do Fies, realiza uma avaliação contínua do programa, baseada em estudos técnicos e dados de execução e fluxo de caixa.

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