BRASIL REAGIU A DECISÃO
Governo brasileiro reafirma combate "permanente" contra PCC e CV após designação dos EUA
Governo brasileiro criticou a designação de PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA, defendendo soberania nacional e criticando interferência externa e uso político da segurança pública.
O governo do Brasil, em nota divulgada nesta sexta-feira, 29 de maio de 2026, declarou que mantém um "combate permanente" contra o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho). A manifestação ocorre após os Estados Unidos anunciarem a intenção de classificar as facções criminosas brasileiras como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho.
A decisão norte-americana, informada na quinta-feira, 28 de maio, foi motivada, em parte, por um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Donald Trump. O Planalto, em comunicado, reafirmou o compromisso do Estado brasileiro com o combate a essas organizações, que trazem terror e buscam lucro através do tráfico de drogas e armas, diferenciando-as do terrorismo por motivos ideológicos, políticos ou religiosos.
Em nota oficial, o governo brasileiro criticou veementemente ações que, segundo o texto, buscam confundir conceitos e manipular politicamente a segurança pública. O Planalto mencionou a "deplorável" viagem de integrantes da família Bolsonaro aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, comparando a situação a ações anteriores que causaram danos ao país.
O comunicado destacou que o combate ao crime organizado exige ação conjunta e que o Brasil construiu parcerias internacionais ao longo de décadas, inclusive com os EUA. Em 16 de abril deste ano, o país apresentou ao Departamento de Estado uma proposta focada em inteligência e cooperação, visando ampliar controles sobre lavagem de dinheiro e tráfico de armas. O governo ressaltou que, embora qualquer colaboração seja bem-vinda, não aceitará medidas arbitrárias que ataquem a soberania e a economia nacionais, alertando para o risco de enfraquecer o combate aos criminosos e afetar o sistema financeiro e inovações como o PIX.
Por fim, o governo brasileiro classificou a designação como um "possível retrocesso no combate ao crime", um "risco à vida das pessoas" e um gerador de "prejuízos econômicos ao país". A soberania nacional foi reafirmada como inegociável, com a ressalva de que a classificação e o combate ao crime dentro do Brasil são definidos pelas instituições, leis e forças de segurança brasileiras.
A decisão dos EUA também repercutiu nos bastidores políticos brasileiros, com aliados da oposição vendo a medida como uma vitória política para Flávio Bolsonaro. Interlocutores do governo reconhecem a dificuldade em se posicionar publicamente sem dar a impressão de defesa das facções.
Especialistas ouvidos pela CNN Brasil consideram a decisão preocupante, abrindo margem para disputas políticas sobre soberania nacional. Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da FGV, avalia que a posição em defesa da classificação pode ter um viés eleitoreiro e que muitos não compreendem os impactos negativos. Ele também aponta que, embora uma intervenção direta dos EUA seja improvável, a ampliação desse entendimento poderia gerar maior pressão política sobre o Brasil.
O debate sobre segurança pública tem ganhado centralidade na corrida presidencial. Pesquisa Nexus/BTG indicou que a área é a principal preocupação de 27% dos brasileiros, levando pré-candidatos a internacionalizar a discussão sobre crime organizado. Tanto o presidente Lula quanto Flávio Bolsonaro se reuniram com Donald Trump, apresentando argumentos divergentes sobre a classificação das facções. O governo brasileiro sustenta que a legislação nacional não enquadra os grupos como terroristas, cujas atividades estão ligadas ao tráfico, e não a razões religiosas ou ideológicas. Flávio Bolsonaro, por outro lado, argumentou que as facções atuam de forma transnacional e que a nova classificação fortaleceria o combate ao crime organizado.
Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, considera a medida do governo Trump preocupante, pois "não atende aos anseios da população brasileira" e "poderia usar esse status para ingerir em assuntos internos do Brasil", sendo manipulada de forma a gerar ingerência externa.
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