INTERFERÊNCIA COMERCIAL

Flávio Bolsonaro argumenta aos EUA que PIX não supre necessidades do cartão de crédito e sugere desconexão de sistemas 'não ocidentais'

Presidente Lula
Presidente Lula fala em "traidores da pátria" após carta de Flávio Bolsonaro aos EUA.

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou manifestação ao USTR defendendo o PIX e pedindo adiamento de tarifas sobre exportações brasileiras.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentou um argumento ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), nesta quarta-feira, 1º de julho de 2026, defendendo o sistema de pagamentos instantâneos PIX e solicitando que o meio de pagamento não seja vinculado a "arranjos de liquidação transfronteiriços não ocidentais". Na manifestação, Bolsonaro afirmou que eventuais sanções ao PIX "prejudicam investimentos dos EUA" e propôs um "compromisso legislativo" para garantir essa desconexão.

"Caminhos para a Solução. O sinal decisivo — um compromisso legislativo de que o Pix não será interconectado a arranjos de liquidação transfronteiriça não ocidentais [...] Instrumentos de pagamento privados — cartões de crédito e débito, e outros tipos de empresas — oferecem funções que o Pix não substitui, incluindo crédito ao consumidor, financiamento, proteção contra disputas e mecanismos de estorno", declarou o senador.

O USTR é o órgão americano responsável por formular e negociar a política comercial dos EUA. Ele pode conduzir investigações sobre práticas consideradas prejudiciais ao comércio americano e recomendar medidas como a imposição de tarifas.

Presidente Lula.
Presidente Lula fala em "traidores da pátria" após carta de Flávio Bolsonaro aos EUA.

"Uma sanção ou tarifa é a medida errada: não altera a arquitetura do sistema de pagamentos e prejudica o investimento dos EUA". A declaração reforça a posição de Bolsonaro contra as tarifas.

No documento encaminhado ao USTR, Flávio Bolsonaro também destacou o PIX como um marco da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro e minimizou alegações de conflitos de interesse feitas pelo governo de Donald Trump, considerando-as "exageradas". O senador comparou o sistema brasileiro ao FedNow, sistema de pagamentos instantâneos operado pelo Federal Reserve (Fed).

"O Pix é uma infraestrutura pública soberana de pagamentos, não uma empresa comercial concorrente; a teoria de conflito de interesses é exagerada, visto que o Federal Reserve dos EUA é, da mesma forma, regulador e operador de um sistema de pagamentos instantâneos (FedNow); o volume de transações com cartões dos EUA no Brasil continuou a crescer paralelamente ao Pix; e a formalização de dezenas de milhões de brasileiros expandiu o mercado consumidor para empresas dos EUA — no comércio eletrônico, em plataformas e fintechs — em um país onde os Estados Unidos lideram o investimento estrangeiro direto", argumentou o senador.

O documento de 86 páginas também solicitou o adiamento, por 180 dias, da aplicação de novas tarifas sobre exportações brasileiras pelo governo norte-americano. Flávio Bolsonaro pediu que o adiamento das taxas de 25% ocorra até após as eleições presidenciais no Brasil.

O senador, que se apresenta como pré-candidato do PL à Presidência da República, citou reuniões anteriores com o presidente Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio sobre o tema das tarifas. A carta refere-se à investigação "Seção 301" da Lei de Comércio de 1974, que analisa práticas brasileiras relacionadas a comércio digital, tarifas, corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.

Com base nesta investigação, o USTR propôs a aplicação de tarifas adicionais contra produtos brasileiros, que poderiam entrar em vigor ainda neste mês de julho de 2026, após um período de consulta pública que inclui audiência nos dias 6 e 7 de julho. O governo brasileiro, por meio do ministro Mauro Vieira, também contestou as alegações, afirmando que o USTR não comprovou atos discriminatórios ou barreiras comerciais por parte do Brasil.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem atribuído as ameaças tarifárias dos EUA a articulações da família Bolsonaro e chegou a classificar os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro como "traidores da pátria". O governo americano, em outra investigação separada, também propôs uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre produtos de dezenas de países, incluindo o Brasil, por suposta falha na fiscalização de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

A proposta de tarifas adicionais, baseada na Seção 301, ainda passará por consulta pública. Caso confirmadas, as tarifas podem atingir parte das exportações brasileiras, embora haja exceções para produtos estratégicos como café, carne, frutas, aeronaves, fertilizantes e minerais críticos.

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