IA E ABUSO INFANTIL

Ferramentas de IA agravam crise de abuso sexual infantil na China, aponta relatório

Representação simbólica de segurança digital em um smartphone.
Símbolo de proteção digital em aparelho celular ilustra a temática de segurança online.

Relatório de 2025 analisou 204 crimes contra 690 crianças. Meninas são 95,69% das vítimas. Crimes online e cometidos por conhecidos lideram casos. Especialistas defendem prevenção e educação.

O uso crescente de ferramentas de inteligência artificial (IA) e a popularização da pornografia deepfake estão abrindo novas e alarmantes frentes para o abuso sexual infantil na China. Essa evolução agrava uma crise já preocupante, que antes era majoritariamente associada a educadores e familiares. A constatação é de um relatório recente de uma instituição de caridade infantil sediada em Pequim, que lança luz sobre a nova dimensão tecnológica do problema.

O documento, intitulado "Relatório de 2025 sobre Análise Estatística de Casos de Abuso Sexual Infantil", foi elaborado pela equipe Girls Protection, vinculada à Fundação de Caridade Beijing Zhongyi. Ao analisar 204 crimes que vieram a público em 2025, a pesquisa identificou 690 vítimas infantis. A faixa etária das vítimas era vasta, com a mais jovem tendo apenas 4 anos de idade. As meninas foram as mais atingidas, representando 95,69% do total de casos. Os agressores, por sua vez, variavam de meninos com menos de 10 anos a um homem de 93 anos.

É crucial notar que a pesquisa se baseou exclusivamente em reportagens da mídia e casos divulgados por tribunais e procuradorias. Isso significa que os números apresentados refletem apenas uma fração dos abusos realmente cometidos, uma vez que muitos crimes permanecem ocultos e não chegam ao conhecimento público.

Ameaças recorrentes e novos perfis de agressores

Contrariando uma percepção comum, estranhos não representam a principal fonte de risco para as crianças. Dos 185 casos em que a relação entre vítima e agressor foi detalhada, conhecidos foram responsáveis por 71,89% dos crimes. Professores e funcionários escolares, incluindo treinadores e instrutores, lideram essa estatística, respondendo por 42,11% dos casos. Contatos online somaram 21,8%, enquanto parentes foram responsáveis por 15,04%. Estranhos aparecem com 28,11% dos casos.

Essa predominância de conhecidos como agressores se explica, em parte, pelo acesso frequente que esses adultos têm às crianças fora do ambiente familiar. Um exemplo chocante de 2025 envolveu um professor de uma creche em Haikou, que estuprou uma menina de 10 anos e a ameaçou de morte caso ela revelasse o ocorrido. A vítima só conseguiu pedir ajuda à mãe anos depois, ao entrar no ensino médio, movida pelo medo de que outras crianças pudessem ser prejudicadas.

Membros da família, como pais, padrastos e avôs, também figuram como uma categoria particularmente danosa de agressores. A presidente da Fundação de Caridade Beijing Zhongyi, Sun Xuemei, destaca que a dependência financeira, a pressão emocional e a complexidade das relações familiares muitas vezes mantêm esses crimes em segredo por longos períodos. Um caso relatado em 17 de abril de 2025 na província de Sichuan ilustra essa realidade: uma menina de 11 anos foi repetidamente abusada por seu padrasto por seis meses. Sua mãe, acreditando nas desculpas do marido e atribuindo o comportamento da filha à "rebeldia adolescente", só descobriu o abuso após intervenção policial.

A reincidência é outro fator alarmante, representando 54,9% dos casos analisados em 2025. Em algumas situações documentadas pela fundação, o abuso sexual por familiares se estendeu por até 11 anos, reforçando a necessidade de intervenção externa, pois "esse tipo de abuso quase nunca para por conta própria", segundo Sun.

O relatório também identificou uma preocupante tendência de diminuição da idade dos agressores. Em 2025, foram registrados 8 agressores menores de idade, com o mais jovem com menos de 10 anos. Por outro lado, 7 agressores tinham mais de 60 anos, incluindo um de 93 anos. A entrada de jovens no universo da criminalidade levanta desafios complexos para o sistema judiciário em termos de responsabilidade, tratamento e monitoramento.

Casos recentes revelam a gravidade dessa nova dinâmica. Um agressor com menos de 10 anos agiu em conjunto com colegas para atacar uma colega. Em outras situações, menores cometeram abusos contra outros menores, inclusive através de "molestamento remoto" em conversas anônimas, exibindo coordenação similar à de gangues.

A complexidade se estende a agressores idosos. Um homem de 70 anos, por exemplo, estuprou uma vítima com deficiência intelectual. Em outro caso chocante, um homem de 93 anos, condenado a 15 anos de prisão por estuprar uma menor, teve sua sentença cumprida fora da prisão devido à sua incapacidade de cuidar de si mesmo, gerando forte reação pública.

A internet e a IA como vetores de novas modalidades de abuso

O avanço da internet e da IA tem proporcionado aos predadores ferramentas inovadoras para o aliciamento e abuso infantil. Os contatos online emergiram como a segunda maior categoria de casos entre conhecidos, com 21,8% do total, e essa tendência é acentuada, à medida que crianças acessam a internet mais cedo e por períodos mais longos.

O "molestamento remoto", que envolve forçar crianças a enviar nudez ou participar de conversas por vídeo explícitas, embora sem contato físico, causa danos psicológicos massivos. O Supremo Tribunal Popular e a Suprema Procuradoria Popular esclareceram em junho de 2023 que coagir menores a expor partes íntimas ou realizar atos obscenos por vídeo constitui molestamento forçado ou infantil.

Li Wei, promotor sênior, enfatiza o perigo singular dos crimes na era da IA. Deepfakes, programas de "despir" virtuais, avatares e engenharia social sofisticada diversificaram e disfarçaram os métodos dos agressores. Eles utilizam personas falsas, contas múltiplas e personagens fabricados para construir confiança, tornando o perigo quase impossível de ser detectado por uma criança sem ajuda.

Wei também alerta que a internet atrai adolescentes para a criminalidade. Menores expostos a conteúdo malicioso têm atacado seus pares remotamente. O anonimato online diminui o limiar de risco e embaralha a fronteira entre vítima e agressor.

Liu Lin, conselheiro político e presidente da Universidade da Cidade de Pequim, aponta que companheiros virtuais de IA, projetados para apoio emocional, representam ameaças agudas a menores impressionáveis. A dependência emocional desses bots pode ser explorada por operadores humanos ou algoritmos malignos para manipular crianças e facilitar transições para encontros físicos e agressões sexuais.

Diante desse cenário, Liu insta reguladores a fortalecerem a governança da IA, implementando padrões de geração de conteúdo, reformulando algoritmos, exigindo triagem tecnológica robusta e conscientizando os pais sobre os riscos das ferramentas de IA, que não devem ser tratadas como meros brinquedos.

O dano psicológico é profundo. Um estudo da Universidade de Edimburgo indica que abusadores online exploram sistematicamente a vulnerabilidade e os vazios emocionais de menores para estabelecer controle. Depressão, ansiedade e baixa autoestima estão diretamente ligadas a riscos elevados de exploração, reforçando a importância da segurança familiar e do apoio emocional como salvaguardas definitivas.

Da punição à prevenção: o caminho a seguir

O sistema judicial chinês tem intensificado a aplicação da lei contra predadores infantis. Em 2025, as procuradorias indiciaram 73.000 pessoas por crimes contra menores. Em maio de 2025, três pessoas condenadas por estupro de menores foram executadas após aprovação do Supremo Tribunal Popular, gerando atenção nacional.

A pressão sobre os promotores é crescente. Em 2025, a Província de Guangdong indiciou 7.268 pessoas, embora as agressões sexuais tenham diminuído pela primeira vez após um aumento de sete anos. Outras províncias, como Jiangxi e Ningxia Hui, registraram centenas de indiciamentos.

Fang Yan, deputada e diretora de um escritório de advocacia, aponta para um desafio administrativo complexo: a proibição de criminosos sexuais libertados de contatar novamente crianças. Embora práticas globais incluam proibições ocupacionais vitalícias e rastreamento por GPS, a China enfrenta obstáculos legais e de coordenação. Ela defende a criação de regras unificadas para transformar a supervisão estatal de criminosos de alto risco de um modelo de controle de danos para um de prevenção proativa.

Na esfera digital, os promotores estão aprimorando as defesas. Unidades de perícia digital monitoram ativamente a internet, desmantelam mercados ilegais e cruzam dados de registros de hotéis com perfis de alto risco, gerando alertas automáticos à polícia antes que adultos possam garantir hospedagens clandestinas com crianças.

Contudo, o dano psicológico pós-julgamento é frequentemente negligenciado. Vereditos bem-sucedidos não apagam cicatrizes, e traumas persistentes podem interromper a recuperação funcional da criança. Sun Xuemei relata o caso de uma vítima de 4 anos cujo abusador foi preso, mas a mãe, imobilizada pelo trauma, arrastou a filha por anos em busca de justiça. Aos 10 anos, a criança nunca havia frequentado a escola, evidenciando que "quem precisa de ajuda psicológica não é apenas a criança, mas a mãe também."

Li Wei reforça que o abuso impulsionado por IA é particularmente indelével. Conteúdo de nudez deepfake e vídeos privados tornam-se funcionalmente permanentes após serem carregados, gerando ansiedade crônica nas vítimas quanto à possível redistribuição e exposição social.

Educação sexual como ferramenta primordial

A educação sexual é defendida como uma defesa primária. Vários políticos apresentaram propostas para a inclusão de currículos obrigatórios de saúde sexual nas escolas públicas, com o objetivo de ensinar limites desde cedo e alertar sobre toques criminosos. A proposta é que a educação sexual seja integrada aos diplomas de ensino e ministrada por instrutores especializados em escolas primárias.

Há um esforço para combater o viés parental que associa falar sobre biologia ao incentivo à atividade sexual. A argumentação é que, como as crianças não estão mais isoladas da informação, os pais devem moldar a narrativa antes que a internet o faça. É fundamental tratar os órgãos reprodutivos com a mesma naturalidade que outros órgãos do corpo e ensinar limites desde o jardim de infância.

O impulso educacional já gera resultados. A equipe Girls Protection confirmou um aumento nas denúncias policiais iniciadas por menores. Em um caso recente, uma sobrevivente de 10 anos detalhou sua agressão a detetives, utilizando o vocabulário aprendido em aulas de higiene escolar.

Especialistas concordam que a proteção de menores é um mandato colaborativo, envolvendo famílias, educadores, gigantes da tecnologia e o judiciário. Enquanto os pais devem monitorar mudanças comportamentais e oferecer lares estáveis, as escolas precisam garantir currículos eficazes. As plataformas de tecnologia e o sistema de justiça devem, por sua vez, mitigar as vulnerabilidades sistêmicas que permitem a prosperidade dos predadores online.

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