CÂNCER: TESTE DE SANGUE

Estudo negativo revela potencial promissor em exame de sangue para rastrear câncer

Ilustração de exame de sangue com foco em pesquisa de câncer.
Exame de sangue pode rastrear mais de uma dezena de tumores ao mesmo tempo. Foto: Adobe Stock

Um ensaio clínico com mais de 142 mil pessoas no Reino Unido não confirmou a redução de casos avançados, mas indicou alta capacidade de detecção precoce. A pesquisa foi apresentada na Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco).

Um exame de sangue capaz de rastrear mais de uma dezena de tumores ao mesmo tempo, batizado de NHS-Galleri, foi testado em mais de 142 mil pessoas no Reino Unido. A pesquisa visava responder se a detecção de câncer pelo sangue reduziria o número de casos descobertos em estágio avançado. A resposta foi negativa, mas o estudo revelou um potencial valioso: a tecnologia pode ser capaz de encontrar tumores ainda no início. Os resultados foram apresentados no encontro anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, nesta terça-feira, 02 de junho de 2026. O ensaio NHS-Galleri é considerado tecnicamente negativo, pois o objetivo primário não foi comprovado. Contudo, os dados demonstraram que mais cânceres foram detectados em estágio inicial e menos pacientes receberam o diagnóstico quando a doença já havia se espalhado, o que anima os pesquisadores e médicos. A lógica científica aponta que quanto mais cedo o câncer é encontrado, maiores são as chances de cura. Tumores em estágio inicial (1 e 2) respondem melhor ao tratamento, enquanto os estágios avançados (3 e 4) são mais difíceis de controlar. No grupo que realizou o teste de sangue, os diagnósticos em fase inicial subiram 16%, incluindo tipos de câncer como ovário, esôfago, pâncreas e fígado, que frequentemente são descobertos tardiamente. Simultaneamente, os diagnósticos em estágio 4 caíram 14%. Essa tendência se fortaleceu ao longo dos três anos do estudo, com a redução de casos avançados aumentando progressivamente. Acredita-se que um programa anual e contínuo de rastreamento com este exame possa aproximar os resultados dos números observados nos anos seguintes. Somado aos exames de rotina, o teste de sangue quadruplicou o número de cânceres detectados por rastreamento, identificando casos que mamografia e colonoscopia, isoladamente, não flagrariam. Além disso, reduziu em cerca de 25% os cânceres descobertos em situações de emergência, quando o tumor já causa sintomas graves. No vocabulário científico, um estudo negativo não significa falha da tecnologia, mas sim que os resultados não confirmaram a hipótese principal testada. No entanto, os objetivos secundários do NHS-Galleri forneceram pistas importantes para futuras pesquisas. O estudo se destaca por ser o primeiro ensaio clínico randomizado em larga escala a testar um exame de sangue para rastreamento em um sistema público de saúde, entregando dados inéditos sobre as capacidades e limitações da tecnologia. O desenho da pesquisa dividiu os 142 mil participantes, entre 50 e 77 anos, em dois grupos. Um seguiu os exames de rotina recomendados, enquanto o outro realizou, além destes, o exame de sangue anualmente por três anos. A pergunta central era se o segundo grupo teria menos diagnósticos de câncer em estágios avançados, o que não se confirmou com significância estatística. A tecnologia por trás do exame, conhecida como biópsia líquida, identifica fragmentos de material genético liberados por células tumorais na corrente sanguínea através de padrões de metilação. O resultado é binário (positivo ou negativo), e em caso positivo, o exame estima o órgão de origem do tumor com alta precisão. Apesar da alta especificidade (99,55%), o valor preditivo positivo é de 52%, indicando a necessidade de investigação adicional. O exame detecta com mais facilidade tumores avançados e pode deixar escapar fases iniciais. Um resultado positivo exige investigação cuidadosa, e um resultado negativo não deve levar à suspensão dos exames de rotina. Profissionais de saúde devem orientar os pacientes sobre o significado dos resultados e os próximos passos. Atualmente, o exame é comercializado nos Estados Unidos sem aprovação da FDA e custa cerca de US$ 949, apresentando barreiras de custo e de comprovação científica para incorporação em programas de rastreamento no Brasil. Embora o resultado negativo impeça a incorporação imediata em programas populacionais, os dados sugerem que o rastreamento de câncer pelo sangue se aproxima da prática clínica. O NHS-Galleri representa um avanço significativo, abrindo caminho para um futuro onde exames de sangue possam auxiliar exames de imagem e testes convencionais na detecção precoce e eficaz de diversos tipos de câncer.

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