CELULAR E TERCEIRA IDADE
Estudo da UFMG vincula uso exagerado de celular a ansiedade e insônia em idosos
Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais analisou 50 mil idosos e identificou riscos de nomofobia, dependência e golpes. Especialistas alertam para a necessidade de atenção familiar e letramento digital.
Na terça-feira, 26/05/2026, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou um estudo abrangente sobre o uso de smartphones por pessoas com mais de 60 anos. A pesquisa, que analisou o comportamento de 50 mil idosos – incluindo 11 mil brasileiros –, identificou uma forte associação entre o tempo excessivo dedicado ao aparelho e o desenvolvimento de transtornos como insônia e ansiedade. Especialistas apontam que a nomofobia, o medo de ficar desconectado, também é uma preocupação crescente nessa faixa etária.
O estudo, que compilou os resultados de 20 pesquisas internacionais relevantes, revela que o uso descontrolado de celulares pode levar à dependência, aumentar a vulnerabilidade a golpes e dificultar o discernimento de notícias falsas (fake news). Diferentemente do que ocorre com adolescentes, ainda não há uma definição clara de tempo de uso considerado saudável para idosos.
A professora aposentada Iara Pereira, por exemplo, relata o uso intenso do celular para diversas atividades, como aprender novos ofícios, assistir a vídeos e estudar. “Eu uso muito celular. Tanto é que eu tenho um celular, um tablet e um notebook”, afirma. Essa imersão digital, embora traga benefícios como aprendizado e conexão, também apresenta riscos. Sergio Pimentel, aposentado, alerta para a necessidade de cautela: “Tem que ter cuidado, não abrir nem entrar no ‘saiba mais’ de qualquer coisa”. Marlene Mattos Fernandes, outra aposentada, reconhece passar horas no aparelho: “Você começa às sete horas e daqui a pouquinho é dez horas e você não fez nada. Tudo é feito pelo celular. Eu uso demais”.
A pesquisadora Renata Maria Silva Santos, do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia/UFMG, detalha a nomofobia como "um desconforto generalizado, um medo de ficar desconectado do celular, seja por falta de bateria, por falta de internet". Ela também enfatiza os riscos associados ao desenvolvimento de dependência e à maior exposição a golpes.
O impacto na qualidade do sono é outra conclusão relevante. Ivone, de 80 anos, costuma passar horas jogando no celular até tarde, o que a impede de realizar atividades físicas como a hidroginástica, apesar de se manter ativa socialmente. “Ela acorda cedo, mas fica horas no celular e perde o horário da hidroginástica. Mas ela está ativa no grupo da ginástica, mas não fisicamente”, comenta sua filha, Alexandra da Silva. Ivone, contudo, também encontra prazer em usar o aparelho para ver vídeos, notícias e receitas.
Especialistas como Renata Maria Silva Santos destacam que, além da quantidade de tempo, a qualidade do conteúdo consumido é fundamental. É preciso avaliar se o uso gera ansiedade, angústia e isolamento, ou se proporciona estímulos positivos como aprendizado e contato social. "Em termos de desenvolver estratégias. A família precisa voltar mais o olhar para vulnerabilidade dessas pessoas, porque elas precisam de atenção. A gente precisa melhorar esse cuidado, esse aporte mesmo de letramento do mundo digital para essa idade", conclui a terapeuta ocupacional. O estudo não apresenta um caráter definitivo, podendo haver discussões e análises futuras, mas os achados atuais já indicam a urgência de ações direcionadas.
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