RUMO VERDE

Especialistas cobram ação para descarbonizar transporte público

Participantes do painel Descarbonizar a Cidade Começa pelo Transporte no SPIW
O painel reuniu especialistas e líderes do setor para discutir a eletrificação do transporte público no Brasil. Foto: Estadão.

No SPIW, líderes da Eletra, EzVolt e BID debatem o futuro da mobilidade elétrica no Brasil. São José dos Campos (SP) já lidera com frota ecológica, mostrando o caminho possível.

Especialistas e líderes do setor de mobilidade alertaram que a descarbonização do transporte público no Brasil enfrenta um grande obstáculo: a ausência de políticas públicas claras, linhas de financiamento acessíveis e maior segurança jurídica. A constatação surgiu durante o painel "Descarbonizar a Cidade Começa pelo Transporte", no São Paulo Innovation Week (SPIW), nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026. Essa lacuna impede o avanço da eletrificação da frota, um passo crucial para combater as emissões de gases de efeito estufa e transformar a qualidade de vida dos cidadãos, oferecendo transportes mais silenciosos e eficientes.

O Brasil, como outros países, enfrenta o desafio urgente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, principais responsáveis pelo aquecimento global. Com o setor de transportes respondendo por cerca de 25% dessas emissões, a troca de combustíveis fósseis, como o diesel, por opções mais sustentáveis, como a eletrificação de ônibus por baterias elétricas, tornou-se uma medida essencial.

O debate no SPIW, o maior festival global de tecnologia e inovação, contou com a participação de Anderson Farias, prefeito de São José dos Campos (SP); Milena Braga Romano, CEO da Eletra; Gustavo Tanure, CEO da EzVolt; e Ana Beatriz Monteiro, especialista e líder de transporte do BID (Banco Interameriano Desenvolvimento). O evento é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta-feira, 15 de maio de 2026, e reúne mais de 2 mil palestrantes.

Ana Beatriz, do BID, iniciou o debate questionando o prefeito Anderson Farias sobre os motivos que levaram São José dos Campos a investir na eletrificação da frota. "A cidade tem há algum tempo o DNA da inovação", explicou Farias. "Por isso, desde 2018 e 2019, já enxergávamos a necessidade de mudanças no sistema de transporte público local. A operação era muito cara, o diesel é caro e o serviço deixava a desejar do ponto de vista da qualidade para o usuário", complementou, destacando a perda de passageiros no sistema desde 2020 em grande parte das cidades brasileiras.

São José dos Campos, portanto, optou por reverter esse cenário, buscando atrair mais passageiros para o sistema. "Uma das formas de fazer isso é justamente oferecer um veículo melhor, mais confortável e silencioso", detalhou o prefeito, ressaltando o impacto direto na experiência do cidadão.

Mudança de cultura e custo-benefício

No início, a transição para ônibus elétricos enfrentou resistência por parte dos operadores, acostumados há décadas com o modelo a diesel. Um dos principais entraves era o custo inicial dos veículos, cerca de três vezes mais caros que os movidos a diesel.

Hoje, São José dos Campos possui uma frota com 20 ônibus elétricos, com planos ambiciosos de expandir para mais 350 unidades até o final de 2027. Todos os veículos são fabricados pela Eletra, empresa brasileira com sede em São Bernardo do Campo (SP).

Com o tempo, a resistência foi superada, conforme relatou o prefeito Anderson Farias. "Hoje, eles já compreenderam que a mudança valeu a pena. Entre outras vantagens, a manutenção de um ônibus elétrico é mais barata que a de um veículo a diesel", explicou, evidenciando o retorno do investimento a longo prazo para os operadores e a melhoria do serviço para a população.

Contudo, para acelerar a eletrificação da frota em escala nacional, Farias enfatiza a urgência de políticas públicas claras, linhas de financiamento mais acessíveis e uma maior segurança jurídica para os contratos. "Isso é muito importante para o operador privado operar com segurança", complementou Ana Beatriz, do BID, reforçando a necessidade de um ambiente regulatório estável.

'Caminho sem volta' e a busca por escala

Para Milena Braga Romano, CEO da Eletra, o Brasil já avançou significativamente na eletrificação do transporte público. Ela citou a lei da cidade de São Paulo, que, desde outubro de 2022, proíbe a compra de novos ônibus a diesel na frota municipal, como um marco. "Até alguns anos atrás, havia 215 trólebus elétricos no País. Atualmente, o Brasil já tem cerca de 1.300 ônibus elétricos", informou, mostrando o crescimento expressivo.

A Eletra, por exemplo, conta com 978 veículos elétricos circulando em 17 cidades de 10 Estados, com 96% de nacionalização em sua produção e engenheiros brasileiros. Questionada sobre como alcançar escala na linha de produção e reduzir o custo final dos veículos, Milena destacou a importância da previsibilidade. "Precisamos ter uma regulamentação melhor e políticas públicas bem definidas para que os municípios possam colocar a eletrificação das frotas na agenda", afirmou.

Essa demanda garantida, segundo a executiva, será fundamental para que a indústria consiga se organizar e, consequentemente, oferecer um preço final mais competitivo, tornando a tecnologia mais acessível. "Nós temos engenharia, inovação e capacidade produtiva para responder a essa demanda. A eletrificação é um caminho sem volta", concluiu, transmitindo otimismo e determinação.

'Infraestrutura vem atrás da demanda'

Gustavo Tanure, CEO da EzVolt, concorda que os empresários do setor já reconhecem os benefícios de operar uma frota elétrica em comparação com a diesel. "Mas, hoje, o desafio é ter uma boa infraestrutura para carregamento dos veículos na garagem", pontuou, identificando uma barreira global para o avanço da eletrificação.

Apesar disso, Tanure mostra otimismo, afirmando que esse desafio está sendo superado, embora alguns gargalos ainda persistam. "A infraestrutura sempre corre atrás da demanda. O próprio mercado acaba se regulando", previu. Ele também reforçou a necessidade de novas políticas públicas, financiamentos mais acessíveis e mais Parcerias Público Privadas (PPPs) para destravar a eletrificação do transporte público nos próximos anos, reiterando o consenso entre os especialistas do painel>.

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