ELEITORES ACEITAM ESCÂNDALOS
Especialista: Cenário político permite tolerância à corrupção eleitoral
Polarização e descrença em investigações levam eleitores a aceitar corrupção de seus candidatos, avalia cientista político Leonardo Barreto. "Mal menor" se torna justificativa.
Cientista político aponta tolerância crescente à corrupção eleitoral em cenário de polarização
A intensa polarização política e a crescente descrença nas instituições de investigação no Brasil criaram um ambiente onde os eleitores demonstram maior tolerância a escândalos de corrupção envolvendo candidatos de sua preferência. A constatação é de Leonardo Barreto, cientista político e sócio da consultoria Think Policy, em entrevista concedida na sexta-feira, 03/07/2026, ao programa Hora H. Ele comentou pesquisas recentes e a repercussão de casos envolvendo figuras políticas como Flávio Bolsonaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Jaques Wagner.
Barreto explicou que o atual panorama eleitoral difere do passado, onde crises de corrupção tinham maior poder de impactar campanhas. Atualmente, o eleitor tende a ver a corrupção associada ao seu grupo político como o "mal menor", especialmente quando comparada à possibilidade de o grupo adversário assumir o poder. Essa percepção, segundo o especialista, normaliza a aceitação de escândalos.
Descrença e rejeição elevadas alimentam complacência com corrupção
O cenário político brasileiro é marcado por altas taxas de rejeição dos principais candidatos presidenciais, com mais de 50% de desaprovação em ambos os casos. Essa conjuntura, aliada à descrença generalizada nos órgãos de investigação, contribui para a complacência do eleitorado em relação a escândalos. Barreto citou exemplos de envolvimento de figuras públicas em apurações, de barreiras impostas à criação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) no Congresso Nacional e de questionamentos sobre a imparcialidade de decisões judiciais e policiais.
"Os próprios órgãos de apuração têm pessoas envolvidas em escândalos", afirmou Barreto, destacando a sensação de desalento que essa percepção gera na população, de que "não há para onde escapar".
Estratégias políticas em casos específicos: Wagner e Flávio Bolsonaro
Em relação ao senador Jaques Wagner, o principal risco identificado por Barreto reside no aprofundamento das investigações e em uma eventual denúncia formal. Contudo, ele avaliou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca minimizar esses efeitos a curto prazo. A aparição pública de Lula ao lado de Wagner, segundo o cientista político, pode ser uma estratégia para reforçar o discurso de perseguição política que o próprio presidente tem construído. "Essa presença não pode passar outra mensagem que não seja um desafio aos órgãos de investigação", analisou Barreto.
No espectro do bolsonarismo, o especialista apontou sinais de divisão interna. A ideia de que o antipetismo seria o único elo capaz de manter o eleitorado unido mostrou-se insuficiente. A fala de Michelle Bolsonaro, que trouxe à tona pautas feministas e insatisfações de grupos evangélicos, evidenciou a falta de articulação política entre as diferentes vertentes desse grupo. "Me parece que falta política interna do Flávio para entender as divisões existentes no bolsonarismo e costurar essas alianças", disse Barreto.
Barreto concluiu que, apesar de Flávio Bolsonaro ter um "piso" eleitoral consolidado, este pode se tornar um "teto", limitando sua candidatura. Ele prevê que, com o início oficial da campanha em agosto, as condições objetivas se tornarão mais favoráveis para o surgimento de uma terceira via, visto que as candidaturas principais tendem a focar mais em seus próprios limites do que em suas potencialidades. "A gente está criando condições para que as duas candidaturas principais falem mais dos seus limites do que das suas possibilidades, e isso abre uma janela para o brasileiro considerar outros nomes", finalizou.
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