SAÚDE E SOCIEDADE

Entre a cura e a otimização: os limites da medicina na era da performance

Imagem ilustrativa representando a busca por equilíbrio emocional e saúde.
A cultura da produtividade impõe metas inatingíveis para o corpo humano.

Especialistas alertam para o risco de patologizar vivências naturais, como o luto e o cansaço, transformando a busca por bem-estar em um ideal inatingível.

A busca incessante por uma vida sem falhas, marcada por sono perfeito, foco absoluto e produtividade ininterrupta, tem levado a sociedade a questionar o papel da medicina contemporânea. Embora o progresso científico proporcione tratamentos essenciais para doenças graves, cresce o debate sobre a fronteira entre o suporte médico necessário e a tentativa de eliminar estados emocionais e fases da vida que são, intrinsecamente, parte da experiência humana.

Nesta sexta-feira, 10/07/2026, especialistas apontam que a cultura da otimização está transformando sentimentos comuns, como a tristeza diante de uma perda ou o cansaço físico, em alvos a serem erradicados. Segundo o psiquiatra Almir Tavares, médico do sono pela Universidade Federal de Minas Gerais e coordenador da Associação Brasileira de Medicina do Sono, distinguir uma patologia de uma reação normal exige tempo de escuta, algo que tem se tornado raro nas consultas atuais.

Para o psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, o problema reside na ideia de que qualquer limite pode ser superado. Quando a saúde é confundida com performance, vivências como o luto ou o tédio passam a ser vistas como falhas. O resultado dessa pressão, paradoxalmente, pode agravar o sofrimento, pois a negação de emoções complexas impede o processamento saudável da experiência.

A tecnologia também desempenha um papel ambíguo nesse cenário. Dispositivos de monitoramento, como relógios inteligentes, podem ser ferramentas úteis, mas tornam-se prejudiciais quando passam a ditar o comportamento. O exemplo mais claro, conforme aponta Tavares, é a ortosonia: a ansiedade excessiva em atingir padrões de sono impostos por dados, ignorando que o organismo humano possui variações naturais.

Para diferenciar quando é preciso buscar ajuda médica, especialistas sugerem observar sinais como a perda persistente de prazer em atividades habituais, o comprometimento severo da rotina diária, a intensidade e a duração prolongada dos sintomas, além de pensamentos recorrentes sobre a morte. Esses indicadores, ressaltam os médicos, devem ser analisados presencialmente, distantes da lógica dos aplicativos ou de diagnósticos rápidos realizados via Google.

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