REVOLUÇÃO ENERGÉTICA CHEGA

Energia solar 24/7: Brasil precisa superar barreiras para adotar tecnologia de baterias

Diagrama mostrando painéis solares conectados a um banco de baterias, com setas indicando o fluxo de energia dia e noite.
A tecnologia de baterias (BESS) é essencial para a expansão das energias renováveis, permitindo o fornecimento contínuo de eletricidade.

País enfrenta resistência e alta carga tributária para implementar sistemas de armazenamento, essenciais para a expansão de fontes limpas.

A possibilidade de ter energia solar disponível 24 horas por dia, impulsionada pela queda acentuada nos custos de baterias (BESS), foi destaque em uma reportagem do Financial Times publicada em 15 de maio. Segundo Francesco La Camera, diretor-geral da Irena, a intermitência das fontes renováveis, frequentemente usada como argumento contra elas, foi superada. A tecnologia de armazenamento via baterias, com quedas superiores a 50% no custo de instalações utilitárias desde 2022, conforme a BloombergNEF, agora se apresenta como solução estratégica.

No Brasil, contudo, o debate sobre o armazenamento de energia enfrenta resistência, muitas vezes mascarada como cautela técnica. Essa oposição, que sistematicamente alinha seus argumentos aos interesses de setores ligados a combustíveis fósseis, ignora o status maduro da tecnologia de baterias.

Exemplos globais demonstram a viabilidade: o maior projeto solar com armazenamento do mundo está em Abu Dhabi, com 5 GW de painéis e 1 GW de potência firme 24 horas por dia, a um custo estimado de US$ 70/MWh, competitivo com usinas a gás. Na Austrália, a Fortescue avança em um sistema 100% livre de combustíveis fósseis para mineração. Segundo a Irena, renováveis com armazenamento já garantem energia por mais de 95% do tempo em países como China, Índia e Brasil.

O sistema elétrico brasileiro, com seu crescimento em geração solar e eólica, sofre com o 'curtailment' – o corte de energia renovável por indisponibilidade da rede. Baterias resolvem essa questão ao armazenar o excedente e injetá-lo na rede nos horários de pico, quando a demanda é alta e a geração solar é inexistente. Além disso, cada MW de bateria pode evitar a necessidade de construir novas usinas e linhas de transmissão que ficariam ociosas boa parte do tempo, sem emissões de CO₂ ou dependência de combustíveis importados.

A lentidão na adoção dessa tecnologia no Brasil se deve principalmente a incertezas regulatórias e tributárias. Questões sobre a tarifação do uso da rede pela Aneel afetam a viabilidade dos projetos. Adicionalmente, a carga tributária sobre equipamentos de armazenamento pode alcançar 70%, um imposto que desestimula uma tecnologia crucial para a transição energética e a eficiência do sistema.

Em regiões remotas do Brasil, usinas híbridas com BESS já oferecem energia a comunidades rurais e operações agroindustriais 'off-grid' por menos da metade do custo de geradores a diesel. Com uma tributação mais justa, comparável à de outras fontes renováveis, o potencial de transformação para o interior do país seria imensurável.

Embora baterias não sejam uma solução única, utilizá-las como um obstáculo para defender a manutenção de problemas ambientais é um argumento falho. Termelétricas, por exemplo, apresentam custos elevados, poluição, dependência de combustíveis importados e baixos fatores de capacidade no Brasil.

A variabilidade hidrológica e a crescente intermitência renovável no sistema elétrico brasileiro tornam o BESS não apenas útil, mas essencial. Um sistema com alta variabilidade requer flexibilidade, e o armazenamento por baterias é a solução atual para essa necessidade.

A competição global, conforme La Camera apontou ao FT, é por velocidade na transição energética. O Brasil possui recursos naturais abundantes, mas carece de clareza regulatória, justiça tributária e a coragem para priorizar o interesse coletivo do sistema elétrico sobre grupos que buscam atrasar o progresso. O leilão de reserva de capacidade de baterias representa uma oportunidade histórica. Perder essa janela seria um erro com consequências para as futuras gerações. A tecnologia de baterias já é uma realidade global; é hora de o Brasil abraçá-la.

Sergio Jacobsen é CEO da Micropower, fundador e conselheiro da Asabe, vice-presidente de armazenamento da Absolar.

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