GIRO À DIREITA

Eleições na Colômbia e Peru podem consolidar influência pró-Trump na América Latina

Colômbia vai ao 2º turno com disputa acirrada entre governista e direita populista
Colômbia vai ao 2º turno com disputa acirrada entre governista e direita populista.

Análises indicam potencial para um 'círculo de fogo' ideológico ao redor do Brasil, impactando a política externa e a força regional do país.

A América Latina caminha para um possível fortalecimento de governos alinhados com a direita, refletindo uma onda conservadora que pode ter implicações significativas para o Brasil. A análise surge em meio às eleições presidenciais em países como Colômbia e Peru, onde candidatos da direita despontam como favoritos após o primeiro turno, potencializando um cenário de consolidação de uma direita inspirada em figuras como Donald Trump.

Especialistas apontam que essa movimentação regional pode criar um "círculo de fogo" em torno do Brasil, exercendo pressão e moldando a atuação do país no cenário internacional. Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, observa que "os americanos estão fazendo um círculo de fogo em torno do Brasil, e isso já está pressionando o país". A dinâmica, segundo ele, é impulsionada pela busca dos Estados Unidos em reduzir a influência chinesa na América do Sul.

Para Carolina Silva Pedroso, pesquisadora do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp, a vitória da esquerda em nações como a Colômbia poderia trazer um alívio para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mantendo aliados ideológicos na região. Contudo, ela pondera que "não significa que a vida do Lula vai ser mais fácil. Só que não vai piorar". A complexidade da relação com os Estados Unidos, especialmente sob a influência de Donald Trump, é um fator crucial, independentemente do espectador político.

Colômbia vai ao 2º turno com disputa acirrada entre governista e direita populista
Colômbia vai ao 2º turno com disputa acirrada entre governista e direita populista.

As eleições no Peru, previstas para ocorrer neste domingo, 09 de junho de 2025, colocam a direitista Keiko Fujimori em disputa contra Roberto Sánchez. No Peru, a instabilidade política tem sido uma constante, com uma sucessão de presidentes desde a queda de Castillo. O atual presidente, José María Balcázar Zelada, assumiu o cargo em fevereiro de 2025.

Já na Colômbia, a decisão ocorrerá no final de junho, definindo se o país seguirá o projeto político de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da nação. Petro apoia o senador Ivan Cepeda, que enfrentará Abelardo de la Espriella, representante da direita radical.

Essa onda conservadora não é um fenômeno isolado. A região tem visto o avanço da direita em países como Argentina (Javier Milei, novembro de 2023), Equador (Daniel Noboa, abril de 2025), Bolívia (Rodrigo Paz, outubro de 2025) e Chile (José Antonio Kast, dezembro de 2025). As exceções recentes incluem o Uruguai, que elegeu Yamandú Orsi em novembro de 2024, e a manutenção da esquerda no poder na Venezuela, apesar de eleições contestadas em 2024, e no México e Guatemala.

Analistas como Sá Guimarães destacam que, embora a esquerda historicamente se organize de forma internacional, a eleição de Trump nos EUA, em 2016 e 2024, catalisou uma integração da direita na região. "Isso agora está num processo de quase dez anos de consolidação de uma integração entre essa direita que acaba se influenciando mutuamente", avalia Pedroso, apontando a vitória de Milei como um ponto de virada.

Um fator estrutural identificado é a "praga da incumbência", a dificuldade de governantes se reelegerem, gerada pelo descompasso entre as expectativas dos eleitores e a capacidade dos Estados em entregar benefícios. No Brasil, o presidente Lula enfrenta rejeição, com 53% dos eleitores desfavoráveis em maio, segundo a Quaest, apesar de liderar intenções de voto em cenários de segundo turno contra a direita.

A influência de Trump é considerada mais relevante para o Brasil do que os resultados eleitorais de países vizinhos, embora a direita brasileira possa usar tais vitórias como mobilização. Sá Guimarães ressalta que o "objetivo americano é reduzir a crescente influência chinesa na América do Sul" e que "o presidente Trump procura isolar o Brasil". Mesmo um eventual governo de direita no Brasil, como o de Flávio Bolsonaro, precisaria navegar em uma relação complexa com os EUA, com questões estruturais que transcendem a relação bilateral.

A polarização e o avanço da direita para posições mais extremas, com a ascensão de "outsiders" influentes nas redes sociais, marcam o cenário atual. A dificuldade analítica em mensurar a profundidade desse fenômeno, dada a ineficácia das ferramentas tradicionais de pesquisa, é um desafio crescente. Esse radicalismo, segundo Pedroso, "tem pendido muito mais para a direita" e reflete tensões sociais mais amplas.

Em suma, os resultados eleitorais na Colômbia e no Peru, somados à influência de figuras como Donald Trump, configuram um cenário de maior polarização e potencial consolidação da direita na América Latina. Essa conjuntura exigirá do Brasil uma política externa estratégica e assertiva para manter sua força e soberania em um continente em transformação.

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