IA E JORNALISMO

Editor do The New York Times alerta para predação de IA sobre jornalismo

A.G. Sulzberger em discurso sobre inteligência artificial e jornalismo.
A.G. Sulzberger, Publisher do The New York Times. Foto: Damon Winter/The New York Times via AP

A.G. Sulzberger detalha os riscos do uso indevido de conteúdo jornalístico pelas empresas de tecnologia, pedindo ação para preservar a profissão e a esfera pública.

O Publisher do The New York Times, A.G. Sulzberger, fez um forte alerta nesta terça-feira, 02/06/2026, sobre o impacto da inteligência artificial (IA) no futuro do jornalismo e da esfera pública. Em discurso, Sulzberger detalhou como empresas líderes em IA têm se apropriado de conteúdo jornalístico sem permissão ou compensação, ameaçando a sustentabilidade da reportagem original e a confiança na informação.

O lançamento do ChatGPT, há menos de quatro anos, marcou a chegada da era da IA generativa, com ferramentas cada vez mais poderosas como as de Anthropic, Google, Meta e Microsoft. Embora a IA prometa avanços tecnológicos significativos, ela também levanta questões cruciais sobre produtividade, empregos e o futuro da informação.

Sulzberger criticou o que chamou de "pecado original" das empresas de IA: o uso indevido de propriedade intelectual em larga escala. Gigantes da tecnologia vasculham sites de notícias, reempacotam o material sem consentimento e desviam público e receita que deveriam ir para os criadores de conteúdo. Essa prática contínua, segundo ele, caminha para um futuro com menos jornalistas capazes de realizar reportagens de campo e investigações, essenciais para a saúde democrática.

O dano potencial transcende o jornalismo, afetando livros, filmes, música e pesquisas científicas. As profissões criativas empregam milhões globalmente e geram trilhões em valor econômico. Sulzberger destacou que a indústria jornalística, apesar de já enfrentar pressões, tem sido "silenciosa demais, passiva demais e fragmentada demais" diante desses abusos.

É fundamental que os defensores da IA não dominem o debate sem contraponto. "Não podemos assistir enquanto empresas de IA tentam desmantelar permanentemente os direitos que nos dão controle sobre o trabalho que criamos", afirmou. Ele ressaltou que o The New York Times, apesar de abraçar a tecnologia, reconhece que muitas empresas de IA violam leis e ameaçam o trabalho criativo.

Os modelos de IA dependem de quatro ingredientes: talento, computação, energia e dados. Enquanto os três primeiros são pagos, os "dados" — que frequentemente significam conteúdo protegido por direitos autorais — são tomados sem consentimento. As justificativas variam, mas nenhum argumento sustenta o roubo em larga escala, que prejudica a inovação e enfraquece as empresas criativas americanas na competição global.

A experiência do The New York Times ilustra o problema. A organização, que investiu mais de US$ 2 bilhões em reportagens no último ano, vê seu trabalho — cuidadosamente escrito, verificado e apresentado — ser extraído por modelos de IA. Embora algumas empresas de IA e editores tenham firmado acordos de licenciamento, uma parcela mínima do investimento em IA compensa os criadores de conteúdo. Executivos de IA admitem que conteúdo original de alta qualidade é essencial para a eficácia de seus modelos.

O cenário pré-IA já era desafiador para o setor de notícias, com queda de receitas e desaparecimento de veículos. A IA promete agravar essa disrupção, transformando a relação de valor entre plataformas e criadores. Mecanismos de busca, como o Google, que antes enviavam tráfego para sites de notícias, agora respondem perguntas diretamente, diminuindo a dificuldade de os usuários clicarem em links em 96% em comparação com buscas convencionais.

O impacto no tráfego de notícias é drástico, com quedas de mais de 45% em grandes jornais. Isso afeta a publicidade e torna mais difícil a adoção de modelos de assinatura, pois o conteúdo roubado se torna acessível gratuitamente via IA. "Não é concorrência — é parasitismo", declarou Sulzberger, comparando a postura das empresas de IA à da antiga plataforma Napster de música pirata. A disseminação de desinformação, teorias conspiratórias e deepfakes é uma consequência direta.

Para combater essa ameaça, Sulzberger propôs quatro ações para defender o trabalho jornalístico: defender direitos de propriedade intelectual, negociar acordos com cautela, pressionar legisladores por leis que reforcem proteções e transparência, e unir-se a outras indústrias criativas. Além disso, as organizações de notícias devem usar a IA de forma responsável, ser um "destino" direto para o público, focar em jornalismo original e explicar a importância da profissão.

Em um mundo saturado de bots e informações duvidosas, o jornalismo confiável se torna mais raro e necessário. O trabalho de repórteres que cobrem eventos, expõem irregularidades e trazem contexto é um pilar da sociedade. Sulzberger concluiu com um apelo sério: "A informação é valiosa. Jornalismo é valioso." A questão crucial é se esse valor será absorvido por gigantes tecnológicos ou se retornará às organizações que o produzem, garantindo a saúde da esfera pública.

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