DOENÇA GENÉTICA AMEAÇA
Dor crônica agrava anemia falciforme, alertam especialistas
Especialistas apontam que a persistência da dor, além das crises agudas, compromete a dignidade e a rotina de milhares de brasileiros com anemia falciforme.
A anemia falciforme, doença genética hereditária mais frequente no Brasil e que afeta cerca de 60 mil pessoas, segundo o Ministério da Saúde, é conhecida pelas crises intensas de dor. Contudo, especialistas alertam para uma complicação igualmente incapacitante: a dor crônica. Diferentemente das crises agudas, este tipo de dor pode persistir por semanas, meses ou anos, comprometendo a dignidade e as atividades cotidianas dos pacientes. A decisão de focar na dor crônica como um agravante significativo da doença foi tomada por especialistas que observam os impactos prolongados sobre a qualidade de vida, tornando crucial a conscientização sobre essa faceta menos discutida da condição.
A condição é causada por uma alteração genética na hemoglobina, que confere às hemácias um formato de foice. Essas células mais rígidas dificultam a circulação sanguínea, obstruindo pequenos vasos. Essa obstrução reduz o suprimento de oxigênio para os tecidos, desencadeando processos inflamatórios e episódios de dor intensa.

“A dor é uma das principais complicações da anemia falciforme por conta da crise vaso-oclusiva. As hemácias em formato de foice obstruem pequenos vasos sanguíneos, o que gera uma dor muito intensa, principalmente em articulações e abdome”, explica o ortopedista e especialista em dor crônica João Henrique Meneses Xavier, de Brasília.
A repetição frequente das crises agudas pode levar a alterações permanentes no sistema nervoso. O organismo se torna mais sensível a estímulos dolorosos, e o desconforto pode se manter mesmo sem uma nova crise vaso-oclusiva ativa.
O ortopedista Lúcio Gusmão, especialista em dor da Rede Cade, destaca que a dor se torna preocupante quando é frequente, persiste por semanas ou meses, aparece fora das crises, exige uso contínuo de analgésicos, prejudica o sono e limita atividades simples, gerando medo de se movimentar.
Um estudo de 2008 na revista Annals of Internal Medicine acompanhou pacientes adultos com anemia falciforme e revelou que aproximadamente 30% relataram sentir dor em mais de 95% dos dias avaliados, evidenciando a cronicidade do sintoma para uma parcela significativa.
João Henrique Meneses Xavier aponta que muitas vezes os pacientes desenvolvem sensibilização periférica e central, experimentando dor mesmo na ausência de um episódio agudo.
Os sintomas da anemia falciforme, que surgem na infância, incluem dor em ossos e articulações, inchaço nas mãos e pés, fadiga, anemia, icterícia, maior suscetibilidade a infecções, atraso no crescimento, falta de ar e úlceras nas pernas. A síndrome torácica aguda é uma complicação grave que causa dor no peito e dificuldade respiratória.
Os impactos da doença transcendem o físico. Dificuldades de aprendizagem, queda no rendimento escolar e restrições em atividades recreativas são comuns em jovens. Adultos frequentemente se afastam do trabalho e enfrentam restrições sociais devido às crises de dor.
Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que quase metade das crianças e adolescentes com anemia falciforme faltaram à escola devido às crises dolorosas, acumulando em média 2,7 dias de ausência no período analisado.
“A dor da anemia falciforme não afeta apenas o corpo. Ela interfere diretamente na escola, no trabalho, no sono, na convivência familiar e na saúde emocional”, afirma Gusmão, ressaltando o grave impacto na dignidade e bem-estar do indivíduo.
A dor constante pode desencadear ansiedade, depressão, irritabilidade e sensação de incapacidade, intensificando o sofrimento e a diminuição da qualidade de vida.
Especialistas defendem um tratamento multimodal e individualizado, que vá além do controle de crises e medicamentos. Fisioterapia, exercícios supervisionados, acompanhamento psicológico, técnicas de relaxamento e educação em dor são essenciais.
“O tratamento moderno da dor na anemia falciforme precisa ser multimodal. Medicamentos são importantes, mas não devem ser a única estratégia”, conclui Gusmão.
O diagnóstico precoce, o acompanhamento contínuo e o tratamento integrado são cruciais para reduzir a frequência das crises, controlar a dor crônica e preservar a autonomia, melhorando significativamente a qualidade de vida dos pacientes ao longo dos anos.
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