INTERFERÊNCIA EXTERNA EM ELEIÇÕES

Donald Trump busca influenciar eleições globais, mas apoio nem sempre garante vitória

Foto de Donald Trump em um discurso.
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em evento público.

Especialistas apontam que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem adotado uma postura sem precedentes ao declarar apoio público a candidatos em diversos países, com resultados variados.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem expandido sua influência em pleitos internacionais, declarando apoio a candidatos em países como Colômbia, Argentina, Honduras, Hungria e Japão. Essa prática, incomum em presidentes americanos anteriores, manifesta-se frequentemente em publicações nas redes sociais, diferindo das intervenções veladas ou diplomáticas de outrora. A mudança de modus operandi foi percebida nesta terça-feira, 09/06/2026, com a declaração de apoio a Abelardo De La Espriella na eleição presidencial colombiana, que disputará o segundo turno contra Iván Cepeda, do partido Pacto Histórico. Trump parabenizou De la Espriella, apelidado de "El Tigre", e classificou seu oponente como um "marxista de esquerda radical", enfatizando a importância do resultado para a Colômbia e suas relações com os Estados Unidos. De La Espriella agradeceu o "apoio decisivo", enquanto Cepeda denunciou o "tom intervencionista" e exigiu respeito à soberania colombiana.

A intervenção de Trump em eleições estrangeiras rompe com o padrão histórico, que geralmente se dava de maneira discreta, através de operações da CIA ou sutis manobras diplomáticas. Em contraste, Trump utiliza plataformas como a Truth Social para expressar apoio aberto, por vezes com ameaças, a candidatos alinhados ideologicamente. Essa estratégia, descrita pelo professor de História Mikael Wolfe, da Universidade Stanford, como uma quebra do "modus operandi" tradicional, permite vislumbrar um padrão de busca por influência em "todas as eleições que ele acompanha", segundo o cientista político Oliver Stuenkel, da Universidade Harvard.

O impacto do apoio de Trump tem se mostrado variável. Na Argentina, a coalizão do aliado Javier Milei obteve vitória nas eleições legislativas de outubro do ano passado após declarações de Trump condicionando auxílio financeiro ao resultado. Similarmente, Honduras viu o conservador Nasry Asfura ser eleito por pequena margem após manifestações de Trump e alegações de fraude eleitoral. O Japão também presenciou uma vitória histórica da coalizão da primeira-ministra Sanae Takaichi, apoiada publicamente por Trump. A Polônia, por sua vez, elegeu o candidato conservador Karol Nawrocki com pedido explícito de voto da então secretária de Segurança Interna americana, Kristi Noem.

Contudo, em outros cenários, a interferência americana não obteve o resultado esperado ou até mesmo prejudicou os candidatos apoiados. Na Hungria, apesar do apoio declarado e da visita do vice americano J.D. Vance ao então primeiro-ministro Viktor Orbán, aliado próximo de Trump, Orbán foi derrotado. No Canadá, provocações e ameaças de anexação como 51º Estado americano, em vez de apoio explícito, acabaram gerando uma onda de orgulho nacional que favoreceu o Partido Liberal, do primeiro-ministro Mark Carney, em detrimento do Partido Conservador. O cientista político Oliver Stuenkel aponta que, em países menos dependentes dos EUA, essa interferência pode ser contraproducente, enquanto em nações mais vulneráveis, o eleitor pode priorizar a relação com os Estados Unidos.

No Brasil, a dinâmica é complexa. Tentativas anteriores de interferência de Trump, como tarifas sobre produtos brasileiros e sanções a autoridades em resposta à "perseguição" de Jair Bolsonaro, não surtiram o efeito desejado, com Bolsonaro sendo condenado por tentativa de golpe de Estado. Segundo o professor Mikael Wolfe, as intervenções de Trump em favor de Bolsonaro acabaram por beneficiar o próprio Lula, reforçando a defesa da soberania nacional. A questão da soberania, profundamente enraizada no Brasil, torna mais difíceis as tentativas de influência externa, conforme ressalta Oliver Stuenkel. A comparação com 2018, quando Bolsonaro foi apelidado de "o Trump dos trópicos" e o governo americano manteve neutralidade, contrasta com 2022, quando Trump apoiou abertamente Bolsonaro, mas Lula venceu. A "campanha de pressão silenciosa" do governo Biden para respeitar a democracia brasileira gerou debates, com alguns a considerando uma defesa do processo e outros uma intervenção que beneficiou a centro-esquerda.

A intervenção explícita de Trump, ao contrário de antecessores como George W. Bush e Bill Clinton que agiram de forma mais velada ou estratégica, reflete uma erosão das normas diplomáticas. Enquanto antes os objetivos eram estratégicos para avançar interesses americanos, Trump parece priorizar a lealdade declarada de líderes, mesmo que não alinhados às prioridades geopolíticas dos EUA. No entanto, a busca por alinhar países do hemisfério contra cartéis de drogas também é um fator relevante. Essa postura, contudo, pode prejudicar relações bilaterais, que passam a ser baseadas em afinidades individuais em vez de interesses compartilhados, gerando instabilidade. No caso do Brasil, uma "queda de braço" entre grupos pragmáticos e ideológicos no governo americano, com destaque para a influência do secretário de Estado Marco Rubio, molda a política externa, direcionando Trump por interesses específicos e não apenas preferência pessoal. Essa articulação da direita internacional, com redes coesas de comunicação e narrativa, é um fenômeno que transcende Trump e sinaliza uma nova era de intervenção política global.

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