SAÚDE PÚBLICA

Desigualdades geográficas e raciais limitam acesso à radioterapia no Brasil

Gráfico ou imagem representativa sobre disparidades no acesso ao tratamento de câncer.
Tratamento de radioterapia enfrenta desafios logísticos e de infraestrutura no Brasil.

Estudo aponta que pacientes na região Norte viajam até 442,2 km para realizar tratamento oncológico, enquanto disparidades raciais também restringem a assistência.

Um estudo publicado no International Journal of Radiation Oncology revelou as profundas disparidades que comprometem o combate ao câncer no Brasil. A pesquisa, que analisou dados de 2017 a 2022, evidenciou que a localização geográfica e a raça são determinantes críticos para a viabilidade do tratamento radioterápico, conforme dados consolidados no sábado, 11/07/2026.

A investigação mapeou mais de 840 mil procedimentos, demonstrando que a distância média percorrida pelos pacientes é de 120 km. Contudo, o cenário revela um abismo regional: enquanto no Sul e no Sudeste a média é inferior a 75 km, no Norte do país o deslocamento chega a 442,2 km. Essa realidade impõe um desgaste físico e emocional imenso, forçando indivíduos a buscarem abrigos temporários ou apoio de terceiros para completar ciclos diários de terapia.

A rádio-oncologista Ana Carolina de Rezende, do Einstein Hospital Israelita, explica que o impacto clínico é severo. "Muitos pacientes abandonam o tratamento ou atrasam seu início devido às dificuldades de deslocamento, o que diminui a sobrevida e aumenta o risco de recidivas", afirma. Segundo a especialista, o problema não se resolve apenas com mais equipamentos, mas com uma distribuição equitativa e a atualização tecnológica dos aparelhos existentes.

O fator racial também evidencia a iniquidade do sistema. O levantamento constatou que pacientes negros, pardos, indígenas e amarelos percorreram, em média, 145,6 km para o atendimento, superando em quase 50% a distância percorrida por pacientes brancos. Para Fabio Ynoe de Moraes, autor principal do estudo e membro da SBR (Sociedade Brasileira de Radioterapia), a infraestrutura atual reflete padrões históricos de exclusão.

O desafio torna-se ainda mais urgente diante das projeções do Inca (Instituto Nacional do Câncer), que estima um aumento de 10% nos novos casos de câncer até o final da década. Especialistas defendem a implementação de protocolos de hipofracionamento — que reduzem o número de sessões — como uma medida de política pública capaz de amenizar o sofrimento de pacientes que vivem longe dos centros de excelência.

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