POLÍTICA PÚBLICA DESIGUAL
Desequilíbrio no cinema: Sudeste concentra 70% da verba pública e gera debate
Dados do Fundo Setorial do Audiovisual revelam que a maior parte dos investimentos federais privilegia o Sudeste, perpetuando disparidades regionais históricas.
O financiamento do cinema brasileiro enfrenta um dilema estrutural que coloca em xeque a representatividade das diversas culturas nacionais. Durante a cerimônia do Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro, na terça-feira (4), o diretor Kleber Mendonça Filho trouxe à tona uma crítica incisiva sobre a centralização do poder e dos recursos no eixo Sudeste, um movimento que, segundo ele, invisibiliza realizadores de outras partes do Brasil.
Essa disparidade não é apenas simbólica, mas reflete diretamente no acesso a investimentos públicos. Segundo o Relatório Anual de Gestão do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), a região Sudeste concentrou 66,29% dos recursos investidos pelo fundo em 2025, totalizando R$ 374 milhões. Enquanto isso, as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste somaram, juntas, apenas 22,63% da verba distribuída.
A concentração é sustentada por mecanismos de mercado que favorecem produtoras já consolidadas. A exigência de contrapartidas locais e critérios de pontuação baseados em resultados históricos cria um ciclo de retroalimentação: estados com agências estruturadas, como Rio de Janeiro e São Paulo, possuem maior capacidade técnica e financeira para pleitear os aportes, deixando realizadores de regiões menos privilegiadas em desvantagem competitiva.
Especialistas como Lia Bahia, doutora pela Universidade Federal Fluminense (UFF), apontam que a lógica de editais — muitas vezes pautada por métricas de mercado ou regimes de reembolso — força cineastas a moldarem suas narrativas para atender a exigências burocráticas, em vez de fomentar a diversidade criativa. O impacto direto é a limitação da voz de novos talentos e a perpetuação de um cinema que não reflete a pluralidade do país.
Embora a Lei nº 11.437 preveja cotas regionais para a distribuição dos recursos do FSA, a eficácia dessas políticas é questionada diante da realidade dos números. A Ancine, gestora do fundo, não respondeu aos questionamentos sobre a manutenção dessa concentração. O mesmo debate atravessa a Academia Brasileira de Cinema, onde a maioria dos sócios com poder de voto está sediada no Sudeste, impactando diretamente o reconhecimento artístico de produções fora desse eixo.
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