GEOPOLÍTICA E CONFLITO
Dependência militar da Coreia do Norte revela fragilidade da Rússia
Mobilização de 50 mil soldados norte-coreanos aponta incapacidade de Moscou em manter ofensivas com efetivo próprio, avaliam especialistas.
A mobilização de cerca de 50 mil soldados norte-coreanos para atuar ao lado da Rússia expõe a crescente dificuldade de Moscou em manter seus próprios efetivos na linha de frente do conflito. O cenário foi detalhado pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, no domingo (9), evidenciando o aprofundamento da parceria estratégica entre o Kremlin e Pyongyang.
A presença expressiva de combatentes estrangeiros, que supera a estimativa de 30 mil homens feita em julho, é interpretada como um indicativo de que o Exército russo não consegue reunir o contingente humano necessário para sustentar novas ofensivas na Ucrânia. Segundo Marie Mendras, professora de Relações Internacionais na Sciences Po de Paris, a necessidade de suprir o front torna-se urgente diante de perdas acumuladas que já somam 1,5 milhão de soldados russos, entre mortos, feridos ou inabilitados para o combate.
“O Exército russo não consegue mobilizar as centenas de milhares de homens de que precisaria para retomar uma ofensiva. No leste e no sudeste da Ucrânia, as forças de Moscou não avançam há meses e são obrigadas a recuar em alguns pontos, priorizando a manutenção de posições para evitar derrotas maiores”, avalia Mendras.
Dificuldades internas e métodos de recrutamento
O esforço de guerra russo tem sido sustentado por uma política de convocação permanente iniciada em setembro de 2022. Entretanto, relatos apontam que o recrutamento muitas vezes ocorre sob coerção, com ameaças a familiares de reservistas. Para a especialista, a eficácia desses novos recrutas é questionável, visto que muitos chegam ao campo de batalha sem preparo ou motivação.
A crise de efetivos também afeta a gestão das zonas ocupadas, como a Crimeia e partes do leste da Ucrânia. O desvio de militares para a linha de frente deixou lacunas administrativas, agravadas por denúncias de corrupção nos territórios sob domínio russo, o que tem motivado parte da população local a abandonar essas regiões.
Escalada tecnológica e mísseis
Diante da estagnação terrestre, a estratégia do Kremlin tende a focar na intensificação de ataques aéreos. Kiev enfrenta uma escassez crítica de sistemas de defesa, vulnerabilidade que Moscou pretende explorar com o apoio técnico de Pyongyang. Informações dos serviços de inteligência ucranianos indicam o deslocamento de unidades de mísseis norte-coreanas para o oeste da Rússia, equipadas com lançadores e projéteis de longo alcance.
Desde a assinatura do tratado de parceria em junho de 2024 entre Vladimir Putin e Kim Jong-un, o fluxo de armamentos — que incluiria milhões de projéteis de artilharia, morteiros e mísseis balísticos — tornou-se um pilar fundamental para a manutenção da capacidade ofensiva russa, embora nem Moscou nem a Coreia do Norte tenham confirmado oficialmente os detalhes dessas transações.
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