DECISÃO HISTÓRICA
Departamento de Estado dos EUA classifica Comando Vermelho e PCC como terroristas globais
Medida do governo americano gera debate no Brasil sobre as diferenças entre narcotráfico e terrorismo. Analista da CNN Brasil detalha riscos e impactos.
O Departamento de Estado dos EUA anunciou nesta quinta-feira, 28, a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como "Terroristas Globais Especialmente Designados". A decisão, anunciada na quinta-feira, 28, gerou reações imediatas do governo brasileiro e desencadeou um amplo debate sobre as distinções conceituais e práticas entre os atos de terrorismo e as operações do crime organizado de larga escala.
O analista de assuntos internacionais da CNN Brasil, Lourival Sant'Anna, avaliou a repercussão política da medida em solo brasileiro, destacando que o discurso adotado pelas autoridades nacionais para contestar a classificação americana pode ter desdobramentos desfavoráveis. "Você vem dizer que o nosso crime organizado não é terrorista, parece realmente que ele está defendendo o crime organizado", observou Sant'Anna no videocast Fora da Ordem.
Ele também ressaltou que a percepção popular de se sentir aterrorizado por ações criminosas não se confunde com a definição técnica de terrorismo, embora os dois fenômenos possam gerar medo na população. "As pessoas comuns confundem sentir-se aterrorizado com terrorismo", explicou.
Com base em sua experiência de campo em comunidades afetadas pelo narcotráfico no Brasil e em zonas de atuação de grupos como Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmico, Estado Islâmico, Al-Qaeda, Talebã e Farc, Lourival Sant'Anna afirmou conhecer "a diferença entre esses dois grupos de atividade". Ele enfatizou que o crime organizado e o terrorismo operam com lógicas distintas, e a equiparação de ambos pode comprometer a eficácia das estratégias de combate. "O crime organizado e o terrorismo operam com lógicas completamente distintas", pontuou.
Sant'Anna também alertou para os perigos de se aplicar uma doutrina militar no enfrentamento ao narcotráfico. "Os militares não são treinados para investigar, infiltrar-se em organizações criminosas, para reunir provas, para criar um inquérito policial", disse. Ele ainda apontou que a corrupção nas Forças Armadas pode ter consequências mais devastadoras do que entre policiais, pois os militares agem como um corpo coletivo, e a corrupção em um indivíduo pode se espalhar por toda uma unidade, citando exemplos de Venezuela, Peru e Paraguai.
O emprego de táticas militares em áreas urbanas densamente povoadas representa um risco iminente de mortes de civis vulneráveis. "Se você vem, abre fogo numa rua daquela, num lugar que é muito populoso, muitos civis vão morrer, crianças, e aí as coisas não vão melhorar", alertou o analista. A designação de grupos criminosos como terroristas pode, paradoxalmente, beneficiar o próprio crime organizado, ao desviar o foco da investigação policial para uma abordagem militarizada, que se mostra ineficaz para desarticular essas organizações.
Para combater o narcotráfico de forma eficaz, Sant'Anna defende um trabalho policial minucioso, que compreenda toda a cadeia do crime, "desde o plantio até a distribuição, passando por toda a logística". Ele reconheceu que o Brasil enfrenta problemas graves, como territórios dominados pela criminalidade, comerciantes submetidos a extorsões, e a infiltração do crime organizado na política, afetando juízes, policiais, vereadores, advogados e deputados. "Tudo isso precisa ser limpo", concluiu.
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