NOVA OPORTUNIDADE
Demanda recorde dos EUA abre espaço para carne bovina brasileira com potencial de avanço
Estimativas indicam forte crescimento nas importações de carne bovina pelos Estados Unidos, com o Brasil posicionado para ampliar sua participação no mercado. Eliminação de cotas pode impulsionar ainda mais as exportações.
A crescente demanda por carne bovina nos Estados Unidos pode representar um marco significativo para as exportações brasileiras nos próximos anos. Estimativas do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) apontam que o país deverá importar aproximadamente 2,77 milhões de toneladas da proteína em 2026 e um volume similar em 2027. Neste cenário, o Brasil tem potencial para exportar cerca de 318 mil toneladas para o mercado norte-americano, mesmo sob as atuais regras de importação.
A análise é de Geraldo Isoldi, analista da Terra Investimentos. Ele avalia que o volume pode ser ainda maior caso os Estados Unidos decidam pela eliminação da TRQ (Tariff-Rate Quota), um sistema de cotas que atualmente restringe a entrada da carne bovina brasileira no país.
"Desses 2,77 milhões de toneladas que os Estados Unidos devem importar, a gente já projeta que o Brasil exporte cerca de 318 mil toneladas. Isso sem nada acontecer, com a TRQ mantida e com os impostos aplicados depois que a cota é esgotada", afirma Isoldi.
Atualmente, o Brasil se insere na cota destinada ao grupo de "outros países". Essa cota, que em 2025 era de 65.005 toneladas, foi reduzida para 52 mil toneladas neste ano, com 13 mil toneladas transferidas para o Reino Unido. O analista aponta que esse limite, frequentemente, é atingido nos primeiros dias de janeiro, forçando os exportadores a arcarem com uma tarifa de 26,4% sobre os embarques subsequentes.
Essa situação coloca o Brasil em desvantagem competitiva em relação a países como Austrália e Nova Zelândia. A Austrália, principal fornecedora para os EUA, possui uma cota de aproximadamente 550 mil toneladas sem a aplicação de tarifas. Mesmo para volumes excedentes à cota australiana, a alíquota é de 21,1%, inferior à imposta à carne brasileira.
"A Austrália tem uma cota muito maior e condições tarifárias mais favoráveis. Enquanto o Brasil paga 40 centavos de dólar por quilo dentro da cota e 26,4% quando ela estoura, os australianos entram sem tarifa dentro do limite e pagam menos imposto fora dele", detalha Isoldi.
A eliminação da TRQ, na visão de Isoldi, representaria uma mudança substancial na competitividade brasileira no mercado norte-americano. "Se por um acaso fosse realmente derrubada a TRQ, a gente competiria em pé de igualdade com a Austrália, com a Nova Zelândia e com os demais fornecedores por esses 2,7 milhões de toneladas de carne que os Estados Unidos precisam importar. E a gente sabe que a nossa carne tem um preço mais competitivo", pondera.
Ele ressalta que, embora cortes australianos possuam preferência entre consumidores norte-americanos por fatores de qualidade e perfil de produto, o Brasil teria condições de aumentar sua participação de mercado. "Não é uma concorrência 100%, porque existem cortes específicos em que eles preferem a carne australiana. Mas certamente o Brasil conseguiria exportar muito mais do que as 318 mil toneladas projetadas hoje", afirma.
Essa perspectiva se fortalece diante do cenário da pecuária norte-americana. Dados do USDA indicam que o rebanho bovino dos Estados Unidos atingiu, em janeiro de 2026, o menor nível dos últimos 75 anos, com 86,2 milhões de cabeças. Adicionalmente, questões sanitárias no México impactaram o fluxo de gado destinado a confinamentos americanos, dificultando a reposição da oferta local.
Nesse contexto, o mercado americano pode se tornar ainda mais estratégico para a carne bovina brasileira. "Quem sabe até a ponto de compensar parte da perda que a gente pode ter com a cota chinesa. Os Estados Unidos têm uma necessidade muito grande de importação e o Brasil reúne competitividade de preço, escala de produção e capacidade de fornecimento", considera o analista.
Uma decisão anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o fim da TRQ para a carne bovina foi adiada após forte resistência de entidades pecuaristas americanas. O setor teme que uma maior abertura às importações possa pressionar os preços domésticos e dificultar a recuperação do rebanho nacional.
Enquanto a medida não é oficializada, o Brasil expande sua presença no mercado. Em 2025, os Estados Unidos importaram 229,5 mil toneladas de carne bovina brasileira. De janeiro a abril deste ano, os embarques já totalizaram 135,6 mil toneladas, evidenciando a relevância crescente deste destino para as exportações nacionais.
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