LEGADO E DESAPEGO
De Macaíba, um inventário de vida para a cultura potiguar
Memórias em fotos e escritos dão lugar a acervo doado à Casa da Cultura Popular Nair de Andrade Mesquita, em 05/05/2026.
Em um gesto que transcende a simples arrumação, o autor confronta sua própria história ao trazer de Macaíba um caixote que encapsula quase cinquenta anos de vida, nesta terça-feira, 05 de maio de 2026. A decisão de revisitar fotografias, recortes e objetos pessoais não se limita a um inventário de posses; ela se transforma em uma jornada íntima de reflexão sobre a busca por felicidade, os enganos e, acima de tudo, o que verdadeiramente permanece, revelando o impacto profundo da passagem do tempo na percepção de si e do próprio legado.
Sobre uma mesa empoeirada, o pacote desafiava a memória. Muitos desses documentos, recorda o autor, já haviam sobrevivido a uma enchente há aproximadamente cinquenta anos, que inundou a rua Francisco da Cruz nº 39, onde residia sua mãe. Pela permissão do destino, os papéis essenciais foram poupados, enquanto outros se perderam na correnteza. Agora, diante de si, apenas o pó e a pigmentação do tempo atestavam a longevidade daquelas recordações. A pergunta ecoava: estaria ali resumida a maior parte de uma vida? Um tesouro de aprendizado eterno, os pedaços de sua existência, agora soltos da casa mater, eram o único legado suficiente.
Um pacote maior e robusto, à esquerda, revelou uma vasta coleção de diplomas, condecorações, títulos, troféus e medalhas. O autor classificava-os como a “coleção vanitas, vanitatis”, que adornava as paredes da antiga sala. Testemunhas documentais de homenagens passageiras, algumas de mérito bajulatório, outras de fiel reconhecimento. No fim, percebe, meros passatempos diante da imensidão da vida.
A reflexão se aprofunda: de que servem hoje tantos símbolos e honrarias, senão para o próprio indivíduo? O mundo, ensina a experiência, dá e, com a mesma facilidade, tira. Agora, sem a casa de Macaíba, não há mais espaço para esses “penduricalhos”. O autor reside em um lar menor, despojado da arquitetura senhorial que, outrora, abrigava com pompa esses “escombros de guerra”.
Contudo, algo de valor imaterial foi deixado para trás, além das sementes de vida de seus pais, que permeavam cada parede, sala e jardim. Uma biblioteca em formação, composta por bons livros de autores nacionais e, principalmente, do Rio Grande do Norte. Esses volumes foram generosamente doados à Casa da Cultura Popular Nair de Andrade Mesquita, com a expectativa de que representem um rico começo para os futuros habitantes e inspirem os jovens a conhecerem mais a fundo os autores potiguares.
Em suma, este é o inventário do autor: modesto, raquítico, dietético, extraído daquele casarão que foi palco de tanto amor, enxugou muitas lágrimas e perfumou sorrisos. Um lugar que sempre foi simples, pobre, sem ostentação. A verdadeira casa do povo, que agora se torna um centro de cultura popular, sem nunca perder sua essência. Há, no fundo, um desígnio superior em toda essa jornada de desapego e legado.
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