ECONOMIA EM ALERTA

Crise do petróleo freia corte de juros no Brasil, aponta pesquisadora da FGV

Gráfico de preços do petróleo em alta.
Conflito no Oriente Médio afeta a economia global e pressiona preços do petróleo.

Conflito no Oriente Médio eleva preços e pressiona inflação globalmente. Especialista prevê que taxa Selic ficará mais alta em 2026, com cortes significativos adiados para 2027.

A instabilidade geopolítica no Oriente Médio, com a paralisação de rotas comerciais cruciais, tem impulsionado os preços do petróleo e de outras commodities. Essa escalada inflacionária global, que elevou a inflação anual ao consumidor nos países da OCDE de 4% em março para 4,4% em abril, impacta diretamente a economia brasileira em 2026, reduzindo o espaço para cortes na taxa básica de juros. A decisão sobre o ritmo de flexibilização monetária, fundamental para a dinâmica econômica do país, é agora diretamente influenciada pela volatilidade dos mercados energéticos.

Tatiana Pinheiro, consultora econômica e pesquisadora da Fundação Getulio Vargas (FGV), explicou que a principal consequência da crise do petróleo para o Brasil em 2026 foi a limitação dos cortes de juros que poderiam ser realizados. "O grande efeito dessa crise do petróleo para o Brasil foi a redução do tamanho de corte de juros que era possível fazer na economia este ano", afirmou.

A precificação do mercado já reflete essa realidade, com projeções limitando a expectativa a mais uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, possivelmente em junho, durante a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Se no início do ano analistas antecipavam a taxa básica próxima de 12% ao final de 2026, a expectativa agora oscila entre 14% e 14,25%. "Mesmo que a guerra terminasse hoje, eu acredito que esse espaço para corte de juros, pelo menos este ano, já se foi", ponderou Pinheiro, indicando que uma redução mais expressiva da Selic deverá ser adiada para 2027.

Petróleo segue como fator central da inflação

A pesquisadora da FGV destacou que a trajetória dos preços do petróleo continuará sendo o principal direcionador da inflação global. Estimativas internacionais sugerem que, mesmo com o fim imediato do conflito, o barril poderia retornar à faixa de US$ 65 a US$ 70 no terceiro trimestre. No entanto, sem uma resolução concreta para a crise, a tendência é que os valores permaneçam elevados, entre US$ 90 e US$ 110 por barril.

"O petróleo está dentro de quase todas as cadeias importantes de produção que nós temos hoje", ressaltou Pinheiro. O insumo é essencial não apenas para combustíveis, mas também na fabricação de fertilizantes, defensivos agrícolas, plásticos, solventes e tecidos, ampliando seu impacto sobre os preços de diversos setores da economia.

Busca por alternativas

Ao analisar estratégias para mitigar a dependência do petróleo e de gargalos logísticos, como o Estreito de Hormuz, Tatiana Pinheiro traçou um paralelo com a crise energética da década de 1970. Naquela época, o Brasil desenvolveu o Pró-Álcool, enquanto países como França e Alemanha investiram em energia nuclear para reduzir sua vulnerabilidade.

"Os países procuraram meios de reduzir essa dependência". Para o cenário atual, a economista apontou a eletrificação da economia como uma das principais alternativas, tendendo a ganhar força diante dos choques recentes nos mercados de energia. Contudo, ela alertou para outro efeito colateral da crise: o aumento do endividamento público, com governos ampliando gastos para proteger suas economias, um ponto de preocupação destacado recentemente pela OCDE.

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