ALERTA DE DÍVIDAS
Crédito em atraso atinge R$ 247,6 bilhões e bate recorde em 2026
Volume de R$ 247,6 bilhões no 1º quadrimestre de 2026 é o maior desde 2004. Fecomercio-SP atribui alta a juros, inflação e apostas.
O crédito em atraso no Brasil atingiu R$ 247,6 bilhões no 1º quadrimestre de 2026, um marco alarmante que representa o maior volume registrado desde o início da série histórica do Banco Central (BC), em 2004. A decisão de considerar débitos com mais de 90 dias de inadimplência, que já desconta o efeito da inflação, revela um quadro de dificuldade financeira generalizada que impacta a dignidade e o bem-estar de milhares de famílias brasileiras.
Os dados, compilados pela Fecomercio-SP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) com base em informações do BC, mostram um salto impressionante de 50,7% em relação ao mesmo período de 2025, quando o estoque de crédito em atraso somava R$ 164,3 bilhões. Essa variação de R$ 83,3 bilhões em apenas 12 meses é quase equivalente a todo o volume de crédito em atraso acumulado pelo país em 2018 (R$ 84,7 bilhões), evidenciando uma escalada preocupante da inadimplência.

O reflexo dessa situação já se manifestava na pesquisa de endividamento realizada pela Fecomercio-SP em São Paulo. Em maio de 2026, a PEIC (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) indicou que 74,2% das famílias na capital paulista estavam endividadas, o índice mais alto em quatro anos. Essa taxa, que era de 72,9% em abril e 71,2% em maio de 2025, sublinha a crescente pressão financeira sobre os lares.
Causas do avanço
A deterioração do cenário de inadimplência no Brasil está intrinsecamente ligada a múltiplos fatores. A elevação da taxa Selic, por exemplo, comprometeu uma parcela significativa da renda familiar com o pagamento de juros, limitando o espaço para quitar outras obrigações. Paralelamente, a inflação, impulsionada por eventos globais como a guerra no Irã que afeta custos de combustíveis, alimentos e transportes, forçou muitos consumidores a adiar pagamentos para priorizar despesas essenciais.
Outro fator apontado pela Fecomercio-SP é o crescimento das apostas esportivas on-line, que passaram a disputar espaço no orçamento familiar e podem ter desviado recursos que seriam destinados ao pagamento de dívidas. A FecomercioSP ressalta que a piora simultânea em modalidades de crédito tão distintas – financiamento imobiliário, crédito consignado, empréstimo pessoal e rotativo do cartão de crédito – sinaliza uma inadimplência disseminada em todo o sistema financeiro.
A ideia de que a maior oferta de crédito explicaria o aumento da inadimplência é refutada pelos dados. Nos 10 Estados com os maiores volumes de débitos atrasados, o crédito concedido cresceu entre 3% e 13% entre o primeiro quadrimestre de 2025 e o de 2026. No mesmo período, contudo, a proporção de dívidas não quitadas disparou entre 43% e 87%, demonstrando que o acesso ao crédito não se traduziu em capacidade de pagamento.
Expansão pelo interior do país
O recorde no volume de crédito em atraso não se restringe a uma única região, atingindo todos os Estados brasileiros. A Região Centro-Oeste liderou o avanço, com alta de 69,3%, seguida pelo Sul (66,1%), Norte (62,7%), Nordeste (47,4%) e Sudeste (37,9%). Entre os Estados, Tocantins registrou a maior expansão em relação a 2025, com 105%, seguido por Rio Grande do Sul (95,7%), Maranhão (93,5%), Mato Grosso (83,1%) e Goiás (81,3%). Em contrapartida, Distrito Federal (25,6%), Rio de Janeiro (26,6%) e Rio Grande do Norte (30,1%) apresentaram taxas inferiores à média nacional.
Estados com maior crescimento frequentemente compartilham uma vulnerabilidade: a dependência majoritária da atividade agropecuária. Quando a rentabilidade do campo diminui, as famílias ficam mais expostas às oscilações do custo de vida, impactando diretamente sua capacidade de honrar compromissos financeiros.
Em termos de participação no total nacional, São Paulo responde por 22,2% do crédito em atraso, com crescimento de 36,8%, abaixo da média do país. Os cinco Estados com maior peso conjunto – São Paulo, Minas Gerais (8,7%), Goiás (7,3%), Rio Grande do Sul (7,2%) e Rio de Janeiro (7,1%) – somam 52,6% do total. Em quatro Estados, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Rio Grande do Sul, a relação entre crédito em atraso e volume total de crédito atingiu o pico histórico. Embora em outros 23 Estados essa proporção esteja abaixo do pico, o valor absoluto em atraso é recorde devido ao crescimento da base de crédito. Para 26 Estados, a taxa de inadimplência é a mais alta do período pós-pandemia.
A Fecomercio-SP avalia que programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola Brasil, oferecem alívio temporário, mas a solução duradoura para a inadimplência exige mudanças estruturais na economia. O controle das contas públicas, por exemplo, é fundamental para promover uma redução sustentável dos juros e da inflação, restaurando a saúde financeira das famílias.
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