DETERMINAÇÃO E CIÊNCIA

Craques dos 40: O que permite a longevidade de atletas como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi

Cristiano Ronaldo em ação durante uma partida de futebol
Máquina do futebol: Como o corpo mantém a alta performance

Genética, disciplina rigorosa, recuperação avançada e o avanço da medicina esportiva são pilares para manter alta performance em idade avançada.

A busca pela longevidade no esporte de alto rendimento, um feito notável alcançado por craques como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, é um tema que fascina e inspira. Enquanto muitos jogadores encerram suas carreiras bem antes dos 40 anos, esses atletas exemplares demonstram que é possível manter uma performance de excelência mesmo em idade avançada, desafiando os limites do corpo e da dedicação. Ambos se preparam para integrar a lista de jogadores mais velhos na Copa do Mundo, com Cristiano Ronaldo aos 41 anos e Messi prestes a completar 39, ao lado de Luka Modric, também na casa dos 40 anos, evidenciando um fenômeno que, embora inspirador, ainda se configura como exceção no futebol mundial.

A continuidade da carreira desses atletas em alto nível até a casa dos 40 anos é resultado de uma combinação complexa de fatores, que vão desde a predisposição genética até a aplicação de ciência e disciplina rigorosa. Especialistas apontam que, embora a genética possa oferecer uma base privilegiada, a longevidade na modalidade é, em grande parte, moldada por escolhas comportamentais, cuidados intensivos com o corpo e a evolução da medicina esportiva.

O Papel da Genética e da Capacidade Técnica

O presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da USP, Bruno Gualano, reconhece o peso da genética, especialmente em jogadores com físicos privilegiados como Cristiano Ronaldo. Segundo ele, a carga genética influencia diretamente a resposta do atleta ao treinamento e sua adaptação aos estímulos físicos, algo que varia significativamente entre indivíduos. "Eu posso até treinar como o Cristiano Ronaldo, mas dificilmente vou responder como ele. Porque isso envolve uma carga genética importante", afirma Gualano.

Por outro lado, Hamilton Roschel, fisiologista e professor da USP, ressalta que, embora um componente genético possa existir, não há comprovação científica robusta que o ligue diretamente a uma maior predisposição para atuar em alto nível até os 40 anos. Roschel destaca que a qualidade técnica e tática desses jogadores é o que, de fato, os permite manter-se em posições de destaque. "Alguns desses atletas são tão bons técnica e taticamente que, mesmo que ele mantenha uma performance física abaixo da que tinha no passado, isso ainda permite que ele siga em alto nível", compara.

Disciplina, Recuperação e Cuidado Contínuo

A disciplina nos treinos e, crucialmente, na recuperação, emerge como outro pilar fundamental para a longevidade desses atletas. A preocupação constante com a alimentação, como a dieta mediterrânea adotada por Cristiano Ronaldo, é essencial para sustentar o alto rendimento. "O cuidado com o corpo é fundamental. Aqueles atletas que têm uma vida mais regrada e que, por sorte e precaução, não têm lesões muito graves tendem a conseguir uma carreira mais longeva dentro do esporte", analisa Gualano.

O controle de carga e a detecção antecipada de lesões, facilitados por análises modernas de desempenho, são igualmente importantes para manter o jogador ativo a longo prazo. O foco em prevenção de sobrecarga e no cuidado físico permite a elaboração de cronogramas de treinamento mais eficientes.

A Contribuição da Medicina Esportiva Moderna

A evolução da medicina esportiva desempenha um papel crucial, especialmente no campo da traumatologia. Tecnologias e protocolos avançados permitem antecipar o retorno ao esporte após lesões graves que, no passado, poderiam abreviar carreiras. Procedimentos modernos, como os realizados em problemas no menisco, permitem que o atleta retorne mais rapidamente à atividade.

Além disso, o desenvolvimento técnico de equipamentos, como chuteiras e bolas, a melhoria dos gramados e tecnologias de monitoramento de desempenho também contribuem para essa longevidade. No entanto, os especialistas ressaltam que, mesmo com todos esses avanços, o esporte de alto rendimento aos 40 anos ainda é uma exceção, e a idade média dos jogadores nas competições não sofreu alterações significativas.

O Legado para o Atleta Amador

É fundamental distinguir o esporte de alto rendimento da prática eventual de atividade física. Para o atleta amador, o foco deve ser a saúde, e não a performance máxima. "Considerando a carga de treinamento à qual se submetem os atletas, treinamento e competição, o risco de lesões, o estresse psicológico, as restrições dietéticas, não dá para imaginar que o esporte é um tipo de saúde perfeito e de longevidade", adverte Gualano.

A determinação e os feitos de craques como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi podem servir de inspiração para uma vida mais ativa, mas não devem ser replicados como um modelo a ser seguido. "As pessoas querem treinar como atletas, sendo que elas têm vidas além disso, tem trabalhos CLT, se deslocam para isso. [...] A gente tem que lembrar que esses atletas se tratam de exceções, com características peculiares, e que isso não deve ser um modelo a ser seguido", alerta Roschel. A prática regular de exercícios físicos é benéfica em todas as idades, mas deve ser orientada por profissionais e guiada por evidências científicas.

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