ENTENDA A DINÂMICA

Como o ciclo da violência doméstica mantém vítimas sob controle

Ciclo da violência doméstica
O ciclo da violência: estudo de caso ajuda a compreender a realidade que atinge milhões de brasileiras.

Especialistas explicam como o padrão de tensão, agressão e remorso perpetua o abuso contra mulheres, tornando o rompimento do relacionamento um desafio complexo.

Especialistas em direitos humanos e psicologia definem a violência doméstica não como eventos isolados, mas como um ciclo recorrente de tensão, agressão e falso arrependimento. Esse mecanismo explica por que muitas vítimas permanecem meses ou anos em relacionamentos abusivos, enfrentando uma dinâmica de controle que se intensifica com o tempo.

O conceito, estruturado pela psicóloga americana Lenore Walker, é fundamental para compreender o comportamento de sobreviventes. O caso da dentista Giullia Falcão, que relatou anos de abusos cometidos pelo ex-marido, o empresário Ivo Vel Kos, ilustra como essa armadilha psicológica funciona na prática.

As três fases do ciclo

A dinâmica é comumente dividida em três estágios:

  • Aumento da tensão: O agressor exerce controle por meio de insultos, ameaças e humilhações. A vítima altera sua rotina para evitar conflitos, tentando aplacar a agressividade do parceiro.
  • Explosão: O momento de ruptura da tensão, onde ocorrem agressões físicas, sexuais, morais ou patrimoniais. É o ápice da violência.
  • “Lua de mel”: O agressor demonstra remorso, pede desculpas, presenteia e promete mudanças, criando uma falsa expectativa de que o comportamento hostil cessou.
  • Segundo Ana El Kadri, co-diretora do Mapa do Acolhimento, a recorrência desse ciclo é um forte indicador de risco de vida. Com a repetição, os intervalos de calmaria tendem a diminuir, tornando o cenário cada vez mais perigoso.

    Superando o mito da culpa

    Entender essas fases é essencial para combater o preconceito de que a mulher permanece no relacionamento por vontade própria. Amanda Sadalla, cofundadora da ONG Serenas, reforça que o fator financeiro e o medo constante são obstáculos reais. A responsabilidade, segundo as especialistas, é sempre do agressor, e a rede de apoio social é vital para a interrupção do ciclo.

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