DECISÃO NA COLÔMBIA
Colômbia: decisão eleitoral pode alterar alianças do Brasil na América do Sul
Eleição pode definir se país seguirá com aliado de Petro ou terá representante da ultradireita, impactando relações com governo Lula.
A Colômbia se prepara para uma decisão eleitoral neste domingo, 31/05/2026, que definirá o futuro de seus projetos políticos e suas relações internacionais. Os eleitores escolherão entre Iván Cepeda, apoiado por Gustavo Petro e com laços com a esquerda, e Abelardo de la Espriella, advogado estreante e expoente da ultradireita. A escolha é crucial para o Brasil, que vê na eleição a possibilidade de manter um parceiro estratégico na América do Sul ou de enfrentar novos desafios diplomáticos.
Para o governo Lula (PT), a eleição de Cepeda significaria a continuidade de uma importante aliança regional, especialmente em temas como a proteção da Amazônia e o combate à criminalidade transfronteiriça. Por outro lado, uma vitória de Espriella pode representar um obstáculo aos planos brasileiros de integração e cooperação, alinhados a uma agenda mais progressista.
O cenário político sul-americano mudou consideravelmente desde os anos 2000, quando a chamada 'onda rosa' impulsionou governos de esquerda na região. Agora, o Brasil de Lula enfrenta uma realidade mais conservadora. Após vitórias de direita na Bolívia e no Chile, a Colômbia se torna um ponto focal para a articulação política brasileira. "Espriella tem advogado por uma relação carnal com o governo norte-americano", aponta Pedro Abramovay, vice-presidente de Programas da Open Society Foundations. "Se a Colômbia traz os EUA para ter base na Amazônia ou comandar o combate ao crime organizado na Amazônia, fica muito mais difícil ter parceria com o Brasil, que não aceita que essa cooperação seja liderada por Washington."
A gestão de Petro na Colômbia foi marcada por uma forte cooperação com o Brasil. Um dos exemplos mais relevantes foi a reorganização da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que culminou na Declaração de Bogotá. O documento fortaleceu mecanismos financeiros como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e estabeleceu uma nova estrutura de cogovernança indígena. Uma possível aproximação da Colômbia com os Estados Unidos, defendida por Espriella, poderia diluir a importância dessas parcerias e a autonomia brasileira na região.
O combate ao crime organizado na fronteira também está em jogo. A política externa dos Estados Unidos, que sob Donald Trump priorizou intervenções na América Latina, pode ver na Colômbia um novo ponto de apoio. A recente decisão de Washington de incluir o PCC e o Comando Vermelho em sua lista de organizações terroristas já gera apreensão em Brasília e pode ser amplificada por uma aproximação maior da futura Colômbia com os EUA.
A integração regional e o fortalecimento de blocos multilaterais, bandeiras do governo Lula, também enfrentam um ambiente mais desafiador. Embora a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) tenha sido reativada, a adesão de diversos países tem sido instável. Uma Colômbia sob Espriella poderia somar-se a forças que dificultam a articulação regional promovida pelo Brasil.
A ascensão de Abelardo de la Espriella na política colombiana é vista com surpresa por alguns analistas. "Ele sai muito do que é a institucionalidade conservadora colombiana", comenta Abramovay, referindo-se à ausência de trajetória política formal e à adoção de uma retórica radical. Seus clientes incluem figuras controversas, o que distancia sua proposta de um conservadorismo mais tradicional. Essa nova corrente da extrema-direita na América Latina diverge de modelos anteriores, influenciados pela guerra civil no país.
Apesar das diferenças ideológicas, o pragmatismo tem guiado a diplomacia brasileira. O Itamaraty busca manter canais de comunicação abertos, independentemente do resultado eleitoral. Relações cordiais com governos de diferentes espectros políticos, como os de Rodrigo Paz na Bolívia e José Antonio Kast no Chile, demonstram essa estratégia. A flexibilidade brasileira visa garantir a continuidade de interesses nacionais em um cenário regional complexo e volátil.
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