DORES INTERROMPEM AULAS
Cólica menstrual afeta rotina de 6 em cada 10 alunas no Brasil, aponta estudo
Pesquisa inédita revela que 60% das estudantes faltam a compromissos escolares por conta de cólicas menstruais. A falta de estrutura e informação aprofunda o problema em meninas negras e pobres.
Uma pesquisa divulgada na última quarta-feira (27) pelo Instituto Alana e Equidade.info trouxe à tona um dado alarmante: 6 em cada 10 alunas no Brasil sofrem com cólicas menstruais intensas, o que impacta diretamente sua rotina escolar. O levantamento, que entrevistou 2.552 estudantes, 330 docentes e 181 gestores escolares em todo o país, apontou que dores relacionadas à menstruação são uma das principais causas de ausência em sala de aula. Cerca de 4 em cada 10 meninas que menstruam já faltaram às aulas pelo menos uma vez por mês devido a esses desconfortos, evidenciando um grave problema de saúde pública e educação.
Além das cólicas, fadiga e dores no corpo foram citadas como sintomas que influenciam o desempenho escolar. Um aspecto preocupante é que 20,1% das alunas relataram sentir vergonha e medo de vazamento de sangue, indicando a necessidade urgente de abordar a educação menstrual no ambiente escolar. A falta de banheiros adequados e de itens de higiene básica, como absorventes, agrava a situação para 8,2% das estudantes. Essa carência de estrutura não apenas trata a menstruação como um problema individual, mas expõe as profundas desigualdades de acesso à informação e aos cuidados de saúde, afetando desproporcionalmente meninas de baixa renda e negras.
Menstruação precoce e cólicas intensas: um ciclo preocupante
O estudo também conectou o início precoce da menstruação — a menarca — a dores mais intensas. Cerca de 36,5% das meninas começaram a menstruar até os 10 anos, e entre elas, 43% relatam cólicas intensas, contra 27% daquelas que tiveram a primeira menstruação aos 11 ou 12 anos. A ginecologista Mariana Granado, do Hospital M’Boi Mirim, explica que a menarca cada vez mais precoce, influenciada por fatores como consumo de ultraprocessados, poluição e genética, exige uma adaptação maior do ambiente escolar. A falta de maturidade emocional para lidar com o ciclo, vergonha e a ausência de mecanismos de apoio contribuem para a abstinência escolar, somando-se a questões de saúde mental, ansiedade e bullying.
Educação menstrual: um caminho para a equidade
A ginecologista Mariana Granado e a sexóloga Joyce Martins defendem a disseminação do conhecimento sobre menstruação para toda a comunidade escolar. Essa medida é vista como crucial para diminuir preconceitos, bullying e para que as estudantes reconheçam os sintomas normais e patológicos. A educação continuada, envolvendo educadores e alunos, pode criar um ambiente mais acolhedor, onde o compartilhamento de informações e o cuidado mútuo sejam a norma. Ações como disponibilizar itens de higiene e roupas extras podem fazer uma grande diferença.
Desigualdades raciais e socioeconômicas aprofundam o desconhecimento
A pesquisa aponta que, embora meninas brancas relatem mais dores menstruais fortes, essa diferença pode mascarar uma realidade de subnotificação entre meninas racializadas, que temem não ser acolhidas. Sofia Reinach, gerente de saúde do Instituto Alana, ressalta que mulheres negras são historicamente ensinadas a tolerar mais a dor. Essa hipótese é reforçada pelos dados de absenteísmo: 14,5% das meninas negras faltaram de dois a cinco dias por mês, contra 9,6% das brancas. A falta de acesso a medicação, absorventes e à própria educação menstrual agrava a vulnerabilidade dessas meninas.
Integrando saúde e educação para diagnósticos precoces
Cólicas intensas em 1 em cada 3 meninas podem sinalizar condições como endometriose ou adenomiose, doenças que afetam milhões de mulheres e cujos diagnósticos são frequentemente tardios. A integração entre saúde e educação é fundamental para desmistificar a menstruação e facilitar a identificação dessas patologias, que começam na adolescência. Políticas públicas voltadas para a equidade de gênero e ações conjuntas entre profissionais de saúde e escolas, como palestras e distribuição de materiais educativos, são essenciais para reduzir o estigma e garantir que todas as meninas recebam os cuidados adequados para sua saúde menstrual.
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