VEGETAIS GANHAM ESPAÇO
Chefs transformam vegetais em protagonistas da alta gastronomia, rompendo com nichos
Cozinha plant-based consolida seu valor, apresentando pratos criativos e saborosos que vão além do nicho, atraindo um público flexitariano e curioso.
A alta gastronomia abraça cada vez mais a cozinha baseada em vegetais, desmistificando a ideia de que pratos sem carne pertencem apenas a um nicho de mercado. Legumes, verduras e cogumelos assumem agora o protagonismo nos menus, impulsionados por um público crescente que busca reduzir o consumo de proteína animal sem sacrificar experiências culinárias sofisticadas. Chefs e especialistas enfrentam o desafio de demonstrar que a cozinha vegetal pode ser tão rica, criativa e saborosa quanto qualquer outra.
Preparações como katsu sando de shiitake, parmegiana de berinjela, bobó de palmito e estrogonofe de cogumelos ilustram essa evolução. Em vez de simplesmente remover carnes e peixes, restaurantes investem em releituras que mantêm referências familiares ao público, ao mesmo tempo que elevam ingredientes vegetais e técnicas culinárias diversificadas.

Por muitos anos, restaurantes vegetarianos enfrentaram ceticismo, sendo vistos como opções para um público restrito. Esse panorama começou a mudar com chefs que posicionaram os vegetais no centro da alta gastronomia. Nomes como a francesa Dominique Crenn, a primeira mulher a receber três estrelas Michelin nos Estados Unidos; a brasileira Mari Sciotti; e Manu Buffara, reconhecida internacionalmente por destacar vegetais em sua cozinha, são referências nesse movimento.
Apesar do crescimento no consumo de proteínas animais, impulsionado em parte por medicamentos para emagrecimento, restaurantes plant-based expandem sua presença. Profissionais apontam três pilares para esse avanço: a versatilidade natural dos vegetais para cardápios sazonais; a adaptação de receitas tradicionais para atrair novos públicos; e o desenvolvimento de uma identidade própria para a gastronomia vegetariana.
Pesquisas de consumo reforçam o potencial desse mercado. Um levantamento da Ipsos para a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) indica que 22% dos brasileiros se consideram flexitarianos, buscando reduzir o consumo de carne. Esse público representa uma oportunidade significativa para restaurantes ampliarem sua clientela.
Conquistar esse consumidor vai além de simplesmente excluir proteínas animais. Chefs enfatizam a importância de comunicar a proposta do restaurante de forma a despertar curiosidade e superar percepções de limitação ou insatisfação com refeições vegetais.
Mari Sciotti, chef e proprietária do Quincho, restaurante paulistano focado em cozinha vegetal, adota essa estratégia. Seu cardápio inclui versões vegetarianas de pratos conhecidos, como estrogonofe de cogumelos, parmegiana de berinjela e steak & fries, todos elaborados com ingredientes vegetais. "Entendi que o público precisava reconhecer o que estava comendo", explica Mari. "Além de ser um incentivo à minha criatividade. Quando vejo uma receita, penso: ‘Como posso transformar esse prato numa versão vegetariana?’". A familiaridade, segundo ela, reduz a resistência inicial, abrindo caminho para experimentações autorais e para que os vegetais se tornem protagonistas interessantes e diversos em técnicas.
No TAU Cozinha, os chefs Fábio Battistella e Gabriel Haddad iniciam a criação de pratos a partir da escolha do vegetal protagonista. "A comida tem de ser tão interessante que você nem lembra que está comendo uma comida de vegetais", afirma Fábio. O processo envolve o estudo de combinações de sabores, texturas e técnicas que valorizam cada ingrediente, buscando uma experiência gastronômica memorável pela riqueza de sabores, e não pela ausência de carne.
O protagonismo dos vegetais estende-se a restaurantes que também oferecem outras proteínas. O Nelita, comandado pela chef Tassia Magalhães e reconhecido no Latin America’s 50 Best Restaurants, destaca ingredientes como o milho em diversas preparações, refletindo uma relação afetiva da chef com o alimento.
Em Curitiba, Manu Buffara mantém os vegetais como ponto central de sua culinária. "Eles sempre ocuparam um lugar central na minha cozinha, mas nunca como substituição ou discurso. Para mim, eles são o ponto de partida. Ao longo dos anos, fui percebendo que um vegetal tem tantas camadas quanto qualquer ingrediente considerado principal. Uma cenoura pode carregar território, técnica, memória e surpresa", argumenta a chef.
Internacionalmente, Dominique Crenn continua a ser uma referência. Seu Atelier Crenn, em San Francisco, é conhecido pelo compromisso com ingredientes sazonais e produção agrícola própria. Em 2018, retirou a carne vermelha do menu por políticas de sustentabilidade. Neste mês, Dominique participa de um jantar especial em São Paulo com o chef Luiz Filipe Souza, do Evvai, reforçando o protagonismo vegetal na gastronomia.
De acompanhamento a protagonistas, os vegetais ganham espaço nas cozinhas de chefs brasileiros e estrangeiros. Seja por releituras de pratos tradicionais ou criações autorais, a tendência aponta para uma gastronomia que valoriza intrinsecamente os ingredientes vegetais, expandindo a diversidade dos menus e atraindo consumidores com variados hábitos alimentares.
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