PRIVILÉGIOS
Câmara dos Deputados sob fogo por horas extras milionárias
Valores chegam a R$ 23 mil em um mês e R$ 428 mil desde 2023, gerando dúvidas sobre a real jornada de trabalho na instituição.
Um levantamento exclusivo, revelado em março de 2026, jogou luz sobre uma prática que levanta sérias questões na Câmara dos Deputados: diretores e servidores de alto escalão da Casa receberam pagamentos de horas extras que atingiram valores de até R$ 22.931,04 em um único mês. Esses valores astronômicos, efetuados pela administração da Câmara, geram desconfiança, pois sugerem uma carga horária semanal impossível de ser cumprida por um único indivíduo, expondo uma possível fragilidade na fiscalização dos gastos públicos e impactando diretamente a confiança da sociedade na gestão do dinheiro público.
Guilherme Barbosa Brandão, diretor-geral da Câmara dos Deputados, por exemplo, viu seu contracheque de março de 2026 acrescido de R$ 22.931,04 em horas extras. Cálculos indicam que, para justificar tal montante, Brandão precisaria ter trabalhado o limite máximo permitido durante a semana e, ainda, cumprir entre 18 e 25 horas diárias nos fins de semana. Este cenário levanta a pergunta: a instituição está pagando por serviços que, fisicamente, são inviáveis de serem prestados?
O caso de Brandão não é isolado. Outros nomes da cúpula da Câmara também apresentaram rendimentos elevados. Daniel Borges de Morais, advogado-adjunto, recebeu R$ 17.178,61 em horas extras em março de 2026. Mesmo se tivesse trabalhado o limite de dez horas extras semanais, R$ 5,1 mil ainda estariam sem justificativa aparente. Mauro Limeira Mena Barreto, diretor administrativo, acumulou R$ 21.807,56 na rubrica “outras remunerações eventuais/provisórias” no mesmo mês. Para ele, a conta só fecharia se, além das horas extras diárias e adicional noturno em dias de sessão, adicionasse 35 horas de trabalho aos fins de semana.
Ao todo, cerca de 70 servidores da Câmara receberam mais de R$ 10 mil apenas com o adicional de horas extras, conforme dados obtidos pelo levantamento. Servidores ouvidos pela coluna, sob condição de anonimato, reforçam a suspeita ao afirmar que os diretores dificilmente trabalham efetivamente aos fins de semana, pois dependem de suas equipes para despachos e decisões.
É importante ressaltar a posição de Guilherme Brandão, que ocupa a diretoria-geral da Câmara desde agosto de 2025, indicado pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). Servidor concursado há mais de 12 anos, ele é o responsável pelo funcionamento administrativo da instituição, cargo de alta relevância para a boa gestão dos recursos.
A situação se agrava ao se observar que mesmo o coordenador da Comissão Permanente de Disciplina (Coped), Thiago de Matos Lauria — órgão responsável pela responsabilização dos servidores —, recebeu R$ 22 mil em “outras remunerações eventuais” em dezembro de 2025.
Em sua defesa, a Câmara dos Deputados argumentou, por meio de nota, que os servidores cumprem uma “jornada semanal extenuante, ordinariamente superior a 40 horas”. A Casa também enfatizou que a frequência é controlada por um sistema eletrônico biométrico obrigatório, inclusive nos fins de semana, e que "não há pagamento de serviço extraordinário sem a devida justificativa formal, prévia autorização e o correspondente registro biométrico". Segundo a Câmara, a prática estaria em conformidade com a Lei nº 8.112/1990 e os normativos internos. Todos os dados salariais mencionados são públicos e disponíveis no site oficial da instituição.
Diretor acumulou R$ 428 mil apenas em horas extras
A análise dos registros mostra que o montante de horas extras recebido por alguns servidores é ainda mais chocante quando observado em um período maior. Daniel Borges de Morais, o advogado-adjunto, acumulou um total de R$ 428 mil em horas extras desde o começo de 2023, sendo R$ 171,4 mil somente em 2025. Esse valor o coloca no topo do levantamento.
Outros diretores também viram suas remunerações adicionais dispararem. Em 2025, Guilherme Brandão somou R$ 157,8 mil em horas extras; Mauro Mena Barreto, R$ 151,7 mil; e Sebastião Neiva Filho, diretor de tecnologia e informação, registrou R$ 134 mil.
Advogado-adjunto recebeu R$ 33,5 mil em um único mês
O recorde de pagamento de horas extras em um único contracheque também pertence a Daniel Borges de Morais: R$ 33,5 mil, creditados em dezembro de 2024. Nesse mês, o valor das horas extras superou sua própria remuneração base, de R$ 33,3 mil. Considerando o limite de duas horas extras noturnas diárias, ele poderia receber até R$ 11,1 mil adicionais. Para alcançar os R$ 33,5 mil, a jornada exigiria trabalho ininterrupto em todos os dias do mês, incluindo sábados, domingos e feriados como o Natal, o que levanta ainda mais questionamentos sobre a validade desses pagamentos.
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