TENSÃO NAS RELAÇÕES
Brasil questiona sanções dos EUA enquanto acumula déficits recordes no comércio
Governo brasileiro reage à imposição de tarifa de 12,5% e levanta a bandeira da Reciprocidade diante de um histórico de desequilíbrio comercial favorável aos americanos.
O Governo brasileiro manifestou seu descontentamento e voltou a defender o princípio da Reciprocidade após a decisão dos Estados Unidos de impor uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros. A medida, justificada por Washington sob alegação de falhas no combate ao trabalho escravo, ignora um histórico consolidado de superávit comercial favorável aos americanos, que lucraram cerca de 480 bilhões de dólares com o Brasil entre 2000 e 2025.
Nesta semana, a decisão de aplicar sanções adicionais, incluindo uma tarifa de 25% sobre diversos itens, foi questionada durante sabatina no Senado americano. O indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, reconheceu o desequilíbrio na balança comercial, embora tenha evitado defender os fundamentos técnicos das novas taxas. Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), também minimizou o superávit americano ao argumentar que barreiras regulatórias e tarifárias ainda dificultariam o acesso ao mercado brasileiro.
A imposição dessas barreiras reflete, segundo especialistas, uma estratégia política que transcende as trocas comerciais. Para Cristina Pecequilo, cientista política e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o rigor americano é uma resposta à busca brasileira por autonomia no cenário global. "O Brasil, sendo autônomo e não se alinhando com os Estados Unidos, vai buscar muitas vezes objetivos de reforma da ordem mundial. Isso afeta o interesse americano", aponta.
Os dados do Departamento de Análise Econômica (BEA) confirmam que o déficit brasileiro em bens e serviços atingiu patamares críticos. Em 2025, o prejuízo comercial do Brasil frente aos americanos chegou a 14,4 bilhões de dólares, superando o dobro do ano anterior. O setor de combustíveis, especialmente o etanol, tornou-se um dos focos centrais da disputa. O USTR alega que taxas brasileiras sobre o produto importado desde 2017 prejudicam a competitividade dos produtores americanos, que enfrentam, segundo o governo dos EUA, a forte concorrência do agronegócio brasileiro.
Apesar da retórica tarifária, a decisão de Washington enfrenta ceticismo. Economistas como Tomás Marques, do German Institute, observam que as tarifas funcionam como instrumentos de reorientação industrial para um país que perde competitividade em setores tecnológicos, e não como uma resposta real a um suposto desequilíbrio comercial inexistente.
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