EUA ACUSAM BRASIL
Brasil isenta de tarifas os 10 produtos mais importados dos EUA, apesar de investigação americana
Investigação iniciada em 2025 pelo governo Trump apontava protecionismo, mas foco mudou para trabalho forçado e desmatamento. Brasil, por sua vez, não taxa produtos americanos de maior volume.
Apesar de investigações e acusações de protecionismo comercial por parte dos Estados Unidos, o Brasil não aplica tarifas adicionais sobre nenhum dos dez produtos norte-americanos mais importados pelo mercado nacional em 2026. A decisão, que impacta a balança comercial entre os dois países, reflete uma estratégia brasileira de manter o acesso a bens essenciais e demonstra a complexidade das relações diplomáticas e econômicas.
Em 2025, o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) iniciou uma investigação com a recomendação de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A justificativa inicial, promovida por representantes do governo de Donald Trump (Partido Republicano), alegava que o Brasil adotava práticas protecionistas e restringia o acesso de exportadores norte-americanos. No entanto, os dados mostram um cenário distinto: o Brasil registra um déficit comercial com os EUA desde 2009 e, ainda assim, isenta de tarifas adicionais os produtos americanos de maior volume importado.
Em contrapartida, os Estados Unidos cobram tarifas sobre quatro dos dez produtos brasileiros mais importados pelo país, evidenciando uma assimetria na política tarifária bilateral.

Um levantamento realizado pelo Poder360 analisou os 20 produtos com maior participação na balança comercial Brasil-EUA, considerando os dez mais importados por cada país de janeiro a maio de 2026. Os dados norte-americanos são da USITC (Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos), enquanto os brasileiros se baseiam na TEC (Tarifa Externa Comum do Mercosul).
EUA ALTERAM JUSTIFICATIVA PARA NOVAS TARIFAS
O desfecho da investigação do governo Trump apresentou uma mudança significativa em suas justificativas. Inicialmente, em julho de 2025, o foco recaía sobre protecionismo e barreiras tarifárias impostas pelo Brasil. Contudo, no relatório divulgado nesta semana, o USTR concentrou as razões para a nova tarifa em temas como uso de trabalho forçado, desvantagens atribuídas ao Pix, regulação de redes sociais e falhas no combate ao desmatamento. As menções a protecionismo e déficit comercial foram deixadas de lado.
O novo documento cita apenas duas práticas tarifárias específicas: a adoção de taxas preferenciais em acordos bilaterais com Índia e México, que os EUA consideram prejudiciais aos seus exportadores, e a tarifa de 18% aplicada pelo Brasil ao etanol. As consequências dessa mudança de retórica e suas implicações para os setores produtivos de ambos os países ainda serão sentidas.
Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados, avalia que a alteração no discurso do governo Trump é uma manobra política. Segundo ele, a relação comercial deficitária para o Brasil não impede Washington de pressionar pela abertura de setores específicos de interesse norte-americano. Barral ressalta que a acusação de protecionismo contra o Brasil tem um componente retórico e seletivo, e que a comparação linear de tarifas não reflete a complexidade das políticas comerciais.
“O ponto central é que tarifa nominal não é sinônimo de abertura real. Os EUA, mesmo com uma economia teoricamente mais aberta, aplicam tarifas relevantes em setores sensíveis e, sobretudo, combinam tarifas com medidas regulatórias e barreiras relacionadas à segurança nacional”, explica o economista, destacando que os EUA também empregam instrumentos setoriais e poder de mercado para proteger seus interesses.
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