DEFESA COMERCIAL BRASIL

Brasil busca barrar tarifas de Trump nos EUA com argumentos da indústria e do agro

Representantes brasileiros em audiências nos Estados Unidos para discutir tarifas.
Brasil responde a relatório dos Estados Unidos e contesta tarifa de 25%

Audiências públicas começam nesta segunda-feira (06/07/2026) nos Estados Unidos. Representantes de setores-chave argumentam que sobretaxas prejudicam ambos os países.

Nesta segunda-feira, 06/07/2026, o Brasil inicia uma ofensiva diplomática e técnica nos Estados Unidos para tentar impedir a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, proposta pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). As audiências públicas, consideradas decisivas no processo de investigação comercial americana, reúnem representantes da indústria e do agronegócio brasileiros. O principal argumento apresentado é que a sobretaxa proposta pelo governo americano não apenas prejudicaria exportadores brasileiros, mas também causaria impactos negativos em empresas, consumidores e cadeias produtivas dos próprios EUA.

A participação brasileira conta com entidades representativas como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Diversos setores, incluindo café, arroz, açúcar, etanol de milho, ferro-gusa, rochas ornamentais, madeira, papel, calçados e mel, também apresentaram seus argumentos técnicos e econômicos.

A estratégia da indústria brasileira foca em demonstrar a profunda integração econômica entre os dois países. A Fiesp, por exemplo, argumenta que a tarifa de 25% carece de fundamento técnico e econômico e afetaria diretamente os custos para empresas americanas. Segmentos de maior valor agregado, como máquinas e equipamentos, autopeças e produtos industrializados, são apontados como os mais vulneráveis em São Paulo. Estimativas da CNI indicam que, caso a medida seja aprovada, 31,6% das exportações brasileiras para os EUA passarão a pagar uma tarifa total de 37,5%, somando a nova sobretaxa a outra acusação americana de falha no combate ao trabalho forçado. Ao todo, 35,2% da pauta exportadora brasileira para o mercado americano seria atingida, e 54,1% das exportações brasileiras para os EUA ficariam sujeitas a algum tipo de tarifa adicional, considerando também as tarifas já existentes da Seção 232.

Durante as audiências, a indústria brasileira pretende refutar quatro pontos levantados na investigação dos EUA: propriedade intelectual, tarifas de importação, desmatamento e a relação bilateral. A defesa aponta que o Brasil tem combatido a pirataria e ampliado ações de fiscalização, que acordos comerciais brasileiros possuem alcance limitado e que a expansão agrícola se deve a ganhos de produtividade, não ao desmatamento. A proposta é fortalecer a integração e a cooperação, em vez de criar barreiras.

Roberto Azevêdo, representante do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp e ex-diretor-geral da OMC, enfatiza que a prática brasileira não é discriminatória nem ilegal sob as regras internacionais. Ele critica a proposta, afirmando que a tarifa não trará os resultados esperados pelos EUA e que aumentará os custos para cadeias produtivas e consumidores em ambos os países. Azevêdo defende a articulação política e a busca por soluções com ganhos recíprocos, ressaltando que a solução depende de envolvimento constante das instâncias políticas.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também considera a tarifa injustificada e prejudicial. Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, declarou que não há evidências de discriminação contra empresas americanas no Brasil. A CNI argumenta que a relação comercial é complementar e que barreiras encareceriam produtos para ambos os países. A incerteza gerada pelas mudanças na política comercial dos EUA é uma grande preocupação para o setor privado, que sofre com queda nas exportações e imprevisibilidade.

No setor de máquinas e equipamentos, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) busca a exclusão de seu segmento da tarifa. A entidade argumenta que a relação comercial é baseada em cadeias produtivas integradas, e não em concorrência direta. Os EUA são o principal destino das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos, mas tarifas anteriores já causaram queda de mais de 9% nas vendas. A Abimaq destaca que 82% das exportações de máquinas para os EUA ocorrem entre empresas do mesmo grupo econômico, evidenciando a integração e o impacto negativo que a sobretaxa teria na própria indústria americana. Patrícia Gomes, diretora de Comércio Exterior da Abimaq, explica que a substituição de fornecedores é difícil devido à customização e ao relacionamento de longo prazo, e que a ruptura dessas cadeias afetaria investimentos em setores estratégicos.

O Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer) pleiteia a exclusão do ferro-gusa da tarifa, matéria-prima essencial para siderúrgicas americanas. A entidade ressalta que o produto não tem relação com os temas investigados e é de difícil substituição, além de ser produzido com carvão vegetal de florestas plantadas, o que reduz emissões de carbono.

No agronegócio, segmentos como mel, café solúvel e pescados buscam evitar a nova tarifa, alegando que a medida pode pressionar preços ao consumidor e elevar a inflação nos EUA. Entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Sociedade Rural Brasileira, União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) e Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS) participam das audiências. A CNA contesta a associação entre crescimento do agronegócio e desmatamento ilegal, apresentando dados de aumento de produtividade com queda no desmatamento na Amazônia. A entidade defende o fortalecimento da cooperação bilateral e destaca a dependência da agropecuária brasileira de insumos importados dos EUA.

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