DADOS REVELAM CRISE

Armas de fogo foram usadas em 70% dos homicídios no Brasil em 2024, revela Atlas da Violência

Brasil registra menor número de homicídios da série histórica
Brasil registra menor número de homicídios da série histórica

Estudo do Ipea e FBSP aponta que 70,1% dos assassinatos em 2024 foram por arma de fogo, menor índice desde 2014, mas com disparidades regionais.

Armas de fogo foram o instrumento em sete de cada dez homicídios no Brasil em 2024. A constatação integra o Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira, 26 de maio, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A pesquisa, que define armas de fogo como dispositivos que disparam projéteis por meio de um cano, incluindo revólveres, pistolas, espingardas, rifles, fuzis e metralhadoras, ressalta que esta é a menor proporção desde 2014, embora o índice permaneça próximo das médias históricas. Comparado a 2023, houve uma queda de 8,8%.

Ao todo, o Brasil registrou 29.870 mortes por arma de fogo, o que corresponde a 70,1% dos 42.590 homicídios oficialmente computados pelo Ministério da Saúde em 2024. A análise aponta para uma redução geral, mas com marcantes desigualdades regionais. O Nordeste se destaca com oito dos dez estados onde a participação de armas de fogo nos homicídios foi mais elevada: Ceará (85,6%), Paraíba (83,9%), Bahia (81,1%), Pernambuco (79,1%), Rio Grande do Norte (78,6%), Alagoas (76,1%), Sergipe (75,5%) e Maranhão (73,5%). Amapá (83,7%) e Rio Grande do Sul (71,8%) completam essa lista.

Na outra extremidade, o Distrito Federal (40,6%), Roraima (43,7%) e Tocantins (49,8%) apresentaram as menores taxas de homicídios cometidos com armas de fogo. Nos últimos dez anos, todos os estados do Sudeste conseguiram reduzir a proporção de armas de fogo nos assassinatos. Em contrapartida, no Norte, cinco dos oito estados registraram tendência de alta no período, com os maiores aumentos em Amapá (+40,9%) e Roraima (+41,7%). O Distrito Federal liderou a queda nacional, com 45,9% de redução na última década.

Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e coordenador do Atlas da Violência, atribui essa disparidade a uma combinação de fatores: transição demográfica, políticas públicas estaduais e governança do crime organizado. A transição demográfica, marcada pelo envelhecimento populacional, ocorreu de forma menos acelerada em estados do Norte e Nordeste em comparação com Sul e Sudeste. Cerqueira também enfatiza a necessidade de políticas públicas mais eficazes e focadas na prevenção, citando o Pacto pela Vida, em Pernambuco, como exemplo de iniciativa bem-sucedida.

A governança do crime organizado varia significativamente. Em estados com facções mais estruturadas, como o PCC, a tendência é de menor número de homicídios, pois o interesse recai sobre crimes mais lucrativos e discretos. No Nordeste, facções menores e mais violentas disputam o controle do varejo de drogas, resultando em maior letalidade e uso de armamento cada vez mais potente por jovens envolvidos.

O Atlas da Violência também revela um aumento no uso de armas mais letais. Um artigo de Langeani e Pollachi (2025) indica queda na apreensão de revólveres e aumento na de pistolas semiautomáticas, além de maior incidência de armas de estilo militar. Essa mudança sugere um acesso facilitado de organizações criminosas a armamentos diversos, muitos com origem em desvios do mercado legal ou em produção irregular. O estudo aponta para uma possível ligação entre a flexibilização no acesso a armas de maior calibre entre 2019 e 2022 e o desvio para o mercado ilegal, evidenciando que armas adquiridas legalmente por civis podem acabar em mãos de criminosos.

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