MORTE APÓS TRATAMENTO
Antonio Carlos Striotto Marins morre após batalha judicial por imunoterapia contra câncer pelo SUS
Paciente de 67 anos, diagnosticado com melanoma metastático, precisou recorrer à Justiça por sete meses para obter Keytruda, já incorporado pelo SUS. A demora permitiu o avanço da doença para o cérebro.
Antonio Carlos Striotto Marins, aposentado de 67 anos, faleceu em 22 de maio, após uma extensa luta de pelo menos sete meses para ter acesso a um medicamento de ponta contra o câncer. A imunoterapia, que já deveria ser fornecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para pacientes em sua condição clínica, só foi obtida por Marins após intervenção judicial, quando a doença já havia progredido significativamente e atingido o cérebro.
A primeira dose do Keytruda, nome comercial do pembrolizumabe produzido pela MSD (Merck Sharp & Dohme), foi aplicada cerca de sete meses após o início da disputa judicial. Durante esse período, o câncer avançou e se espalhou para o cérebro. Marins chegou a receber três aplicações do medicamento, mas não resistiu à progressão da doença.
O Keytruda é considerado uma das principais revoluções na oncologia, pertencente a uma classe de medicamentos que estimula o sistema imunológico a combater células cancerígenas. A tecnologia tem ampliado a sobrevida de pacientes com tumores como melanoma e câncer de pulmão. Apesar de sua eficácia e incorporação ao SUS para casos como o de Marins, o medicamento figura como o mais judicializado no Brasil, com milhares de ações em instâncias Estadual e Federal.
O alto custo do Keytruda, que pode variar de R$ 15.800 a R$ 50.000 por dose dependendo da esfera (SUS ou planos de saúde), contribui para sua frequente presença nos tribunais. O Ministério da Saúde foi procurado para comentar a demora no fornecimento do medicamento após decisão judicial e os motivos que levaram o paciente a ter que recorrer à Justiça, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
A história de Antonio Carlos Striotto Marins foi destaque em reportagem do Poder360, que abordou os obstáculos enfrentados por pacientes na busca por medicamentos de alto custo já incorporados ao SUS. A reportagem integrava o projeto Cancer Calculus, do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos).
O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), comentou que situações como a de Marins evidenciam a urgência em reduzir a dependência da intervenção judicial para o acesso a tratamentos de saúde. "Infelizmente essas tragédias se repetem", afirmou, ressaltando que o ideal é que o sistema de saúde seja eficiente o suficiente para tornar o acesso à justiça excepcional e não a regra, especialmente em casos onde o medicamento já é incorporado.
A advogada Carla Fernandes, que representou Marins, descreveu o caso como uma "sucessão de erros". Ela relatou que, inicialmente, o médico do SUS se recusou a prescrever o medicamento, alegando custos para o sistema. Um parecer do NatJus (Núcleo de Apoio Técnico do Judiciário) também recomendou o não fornecimento, argumento contestado pela advogada, que apontou a inexistência de previsão legal para tal recusa. A liminar foi inicialmente negada, mas posteriormente revertida em recurso.
Mesmo com a decisão judicial favorável, o medicamento não foi entregue pelo Ministério da Saúde no prazo estipulado de 60 dias, exigindo novas medidas judiciais para o cumprimento da ordem. A situação só foi resolvida após pedidos de bloqueio de recursos públicos. "O processo foi consumindo meses de um paciente que tinha uma doença agressiva e que precisava de tratamento imediato", lamentou a advogada, que presenciou o avanço da doença de Marins, do estágio inicial para o acometimento cerebral, durante a espera pelo tratamento.
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